- 20 de agosto de 2025
A VIDA DOS FILHOS
JOBIS PODOSAN
Não construa os sonhos do seu filho e nem crie expectativas sobre a vida dele. Observe para onde ele está indo e o ajude a encontrar o próprio caminho. Se ele escolher um bom caminho, colabore para que o encontre. Se ele fizer opção por caminhos equivocados, aconselhe-o, mas se ele resistir e insistir na direção optada, deixe ele seguir sozinho. Se ele voltar, como fez o filho pródigo, receba-o com carinho.
Não desenhe, na sua prancheta. a vida dos seus filhos. Eles não são você e você já fez as suas escolhas para você mesmo. Como nos ensinou Gibran, no seu famoso livro O PROFETA, “nossos filhos não são nossos filhos, são filhos da ânsia da vida por si mesma, vêm de nós, mas não são nossos”. Eles têm existência própria e sem relação de dependência permanente com a vida dos pais filhos.
Os nascidos nos anos 1970 a 1990, nasceram com a chama da cobrança em relação aos pais, vinculando o sucesso deles às escolhas dos pais. Viraram críticos do pai e da mãe, como consequência de os pais terem sido levados a crer que são ou devem ser amigos dos filhos. O efeito foi a rédea mudar de mãos: os filhos passaram a cobrar dos pais e estes passaram a buscar ajuda para entendê-los. Nas gerações anteriores a 1950, os pais criavam os filhos para serem obedientes, sem direito a cobranças em relação aos pais. Mas, a partir de então, os pais viraram reféns. Os filhos passaram a cobrar presença física do pai e da mãe e, contraditoriamente, passaram a fazer da vida o que quisessem. Esse quadro dantesco inverteu a lógica da vida, na qual os mais experientes serviam de guia para os mais jovens. A agravante de tudo isto foi que, não podendo aplicar sanções aos pais, os jovens passaram a puni-los com a própria autodestruição, principalmente com o abandono dos estudos, o não despertar das vocações, a eliminação dos sonhos e a adesão as drogas das mais variadas espécies, entrando por caminhos de difícil retorno. Os pais perderam a rédea educativa dos filhos e foram engolidos pelo sofrimento. Os filhos, mesmo os melhores, raramente se tornam adultos antes dos 40 anos, permanecendo na casa dos pais ou a elas voltando aos menores sinais de dificuldades. Não conseguem superar os obstáculos da vida, esperando sempre que alguém os remova para lhes facilitar a vida. Veja-se o exemplo abaixo:
Em certa sala de aula, das muitas de que lecionei, na conversa inicial de reabertura das aulas, encontrei um adolescente de 45 (quarenta e cinco) anos. Explico: ele disse ter essa idade, morava na casa dos pais, tinha outra formatura, mas não a aplicava na vida dele, era solteiro, não tinha filhos, frequentava a noite da cidade e, raramente chegava em casa antes da meia noite. Quando chegava, encontrava os pais ainda acordados, esperando para alimentá-lo antes de dormir. Terminada a aula, pedi-lhe que ficasse mais um pouco. A turma saiu e eu lhe perguntei de chofre:
- que mal seus pais lhe fizeram para que você tenha tanto ódio deles?
- professor, pelo anos de Deus, eu amo meus pais.
- não é real que você os ame. Na verdade, você os odeia, por submetê-los a tal sofrimento. Eles devem se perguntar que mal eles fizeram para criar um filho assim. Culpam-se por você não haver crescido e submetê-los às penas que você lhes aplica por ter trazido você ao mundo.
- professor, pelo amor de Deus não diga isso, meus pais são tudo para mim.
- na verdade você os escraviza e explora, matando-os ainda em vida. Me diga uma coisa, quantos dos seus amigos de infância ainda estão na casa dos pais?
- na verdade nenhum.
- quantos não constituíram família?
- nenhum, exceto eu, alguns estão na segunda ou terceira família.
- quantos deles ainda estão na casa dos pais?
- nenhum.
- quantos você encontra nas suas aventuras noturnas?
- na verdade, até hoje só encontrei um, que havia se separado da mulher.
- quantos filhos desses seus amigos você encontra na noite?
- encontro sempre com eles.
- não sente o incômodo de estar na geração errada?
- às vezes sim.
- continue não se preocupando, mas aviso que vai piorar
E concluí:
Meu caro, é bom que você repense sua vida, enquanto seus pais ainda estão vivos: liberte-os da carga que você lhes impôs, vá viver a vida que lhe resta e tente voltar a sua geração. A sua vida é seu problema é não dos seus pais. A maior prova de amor que os filhos dão aos pais é livrá-los dos encargos da vida, assumindo a própria sobrevivência e os ajudando a superar os achaques da velhice.