- 05 de janeiro de 2026
A situação dos brasileiros presos em Porto Ayacucho, na Vezezuela, é algo que merece uma reflexão mais acurada das autoridades brasileiras. Várias são as denúncias que motivam a prisão dos patrícios ali. Uma delas é a degradação dos solos e paisagens, preconizada no artigo 43 da lei penal do ambiente - lei venezuelana. Em bom português, eles estavam trabalhando na garimpagem que, como no Brasil, também é proibida por aquelas paragens. Não é novidade para ninguém que algumas autoridades venezuelanas sejam venais, a ponto de não levarem em consideração o que diz a lei vigente, fazendo valer mesmo a lei do ganho fácil, do levar vantagem em tudo, apesar de desconhecerem uma tal Lei de Gerson, tão em voga em terras tupiniquins. Aliás, esse foi o motivo do qüiproquó ocorrido no primeiro julgamento dos brasileiros. Um certo juiz Diosnardo Frontado, que condenou os patrícios - um deles a seis anos e seis meses de prisão e os demais a cinco anos de prisão -, foi denunciado por corrupção no julgamento dos brasileiros. O julgamento, ocorrido no mês de julho do ano passado, foi anulado por decisão de instância superior. Anulado, sim. Mas os brasileiros continuaram, "aos costumes", guardados nas masmorras venezuelanas, aguardando um próximo julgamento, o que aconteceu em dezembro do ano passado. As penas foram confirmadas. Assim como confirmada também foi a mesma situação de desumanidade com que todos foram e continuam sendo tratados desde os primeiros dias de reclusão. Que os brasileiros erraram em degradar o meio ambiente alheio é fato, e precisa ser punido. Ninguém está aqui querendo livrá-los da lei natural que prevê que para cada ação há uma reação, e que a gente pode escolher nossas atitudes, mas não as conseqüências delas. A questão aqui é outra. Havemos de analisar o porquê de termos patrícios nossos trabalhando em terras venezuelanas, submetendo-se aos riscos comprovados de desaguarem num calabouço da pior espécie e, pior ainda, em país estranho, onde as penas não-oficiais raiam ao canibalismo retrógrado. O que leva patrícios a tamanho desespero? Será o gostinho pela adrenalina gerada a partir do suspense suicida, ou porque se vêem obrigados pelas costelas batendo às costas? Ou será ainda a sanha da vida selvagem, onde as benesses da tecnologia jamais chagaram ou sonham chegar? A resposta mais provável é mesmo o fato do país não ser pai e sim padrasto. Daqueles mais imorais. Indizíveis até. Enquanto o BNDES da proscrita era FHC foi desfalcado em nada menos que R$ 5 bilhões só com o processo de privatização do setor elético entre recursos doados limpinhos e de graça aos compradores - estrangeiros - e investimentos e socorros, de acordo com o Tribunal de Contas da União, os filhos da mãe-gentil são obrigados a buscar o pão-de-cada-dia em regiões inóspitas do país vizinho, sob riscos os mais diversos. É preciso entender que os brasileiros em questão são garimpeiros não por vocação, mas por necessidade. O padrasto lhes negou o direito de estudar. E nem mesmo essa indigesta profissão eles podem exercer em solo pátrio, sendo escorraçados sem dó nem piedade. Enquanto o brasileiro gera os bilhões para formar o superávit primário, destinado a pagar uma dívida externa que nunca acaba nem diminui, esse mesmo brasileiro é obrigado a vender até as calças para pagar o imposto de renda a um governo perdulário e inconseqüente. Enquanto brasileiros são presos nos "barrancos" venezuelanos e outros se ferram nos grotões da Guiana, ONGs estrangeiras se deleitam em preservar o minério dentro de áreas que afirmam ser indígenas. Áreas, aliás, onde quem menos apita é o índio brasileiro. Como dizia Caetano, alguma coisa está fora da ordem. E pelo que se vê, tão cedo não volta à normalidade. Triste constatação. (*) Editor chefe do Jornal BrasilNorte; e-mail: [email protected]