- 05 de janeiro de 2026
Rudolfo Lago Da equipe do Correio Foi apenas às três da manhã do próprio dia 15 de março de 1985 que o então senador pelo Maranhão José Sarney, vice-presidente eleito, percebeu completamente que um turbilhão passara pela sua vida e o arrastara para a cadeira do gabinete principal do terceiro andar do Palácio do Planalto. Depois de ter adiado o quanto pôde a cirurgia que era necessária para aplacar as dores intestinais que sofria pelo menos desde janeiro, o presidente eleito, Tancredo Neves, foi internado às pressas na noite do dia 14 no Hospital de Base de Brasília. Enquanto era operado, os principais artífices da sua eleição discutiam o que fazer no próprio hospital. Uma leitura mais literal da Constituição parecia apontar para a posse do presidente da Câmara, Ulysses Guimarães. A chapa eleita ainda não tinha tomado posse. Ulysses deveria, então, assumir a Presidência e convocar novas eleições em 90 dias. Era evidente que a frágil democracia que nascia não suportaria tal situação. O melhor era dar como certa a interpretação de outro artigo da Constituição que aponta que o vice deve assumir a Presidência nos casos de impedimento do titular. Naquele momento, não importava que nem Tancredo nem Sarney eram ainda titular e vice de coisa nenhuma. O restante das tratativas daquela noite foram no sentido de evitar as reações à posse de Sarney. Primeiro, teria de ficar claro que se trataria de uma posse interina. Assim, antes de se internar, Tancredo deixou assinados todos os diplomas de nomeação de seus ministros. Sarney seria apenas o substituto que tomava posse diante da impossibilidade de Tancredo. O passo seguinte destinava-se a neutralizar as resistências. E o nome fundamental para isso foi o chefe da Casa Civil de Figueiredo, Leitão de Abreu. "Ele não assume! Ele é vice-presidente eleito. Não pode substituir quem também não foi empossado!", esbravejava Figueiredo. Naquela madrugada, o ministro do Exército, Walter Pires, informado de que Sarney é que tomaria posse, informou a Leitão de Abreu que iria para o seu gabinete organizar "o que era preciso". Não deixou claro se o que pretendia organizar era a transição ou uma reação à solução com a qual não concordava. "O senhor não é mais ministro", respondeu Leitão. Precavido, o chefe da Casa Civil adiantara para logo depois de meia-noite a edição do Diário Oficial. Àquela altura, os ministros oficiais já eram os de Tancredo, não mais os de Figueiredo. No dia seguinte, enquanto Sarney entrava no Palácio do Planalto pela rampa da frente, Figueiredo saía pela porta dos fundos, para não dar posse a quem considerava um "traidor". Era o coroamento de uma previsão que Sarney fizera um ano e meio antes, meio sem querer. Em outubro de 1983, o movimento pelas Diretas Já era ainda uma quase utopia que começava a ser alinhavada pelos partidos de oposição à ditadura militar, especialmente o PT e os setores mais à esquerda do PMDB. "O PMDB não pode ter a ilusão de que será governo antes que o PDS o seja", vaticinou Sarney. Na ocasião, a frase era ainda conseqüência dos planos imaginados pelo ex-presidente e general Ernesto Geisel para o que chamou de "abertura lenta, segura e gradual". Por esses planos, o país se redemocratizaria, mas com a manutenção do poder sob o controle dos mesmos. Um ano e meio depois de ter feito aquela afirmação, Sarney não imaginava que aquela sua profecia se concretizaria de uma forma tão diversa. Não pelo sucesso do plano de Geisel, mas como resultado de uma fatalidade, o PDS chegou ao poder pelos braços do próprio José Sarney. O próprio nome político do senador maranhense que há 20 anos tomou posse e iniciou a redemocratização do país é um sinal de como ele molda a seu favor circunstâncias imprevistas. Nascido José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, não conseguia evitar que todos no Maranhão o chamassem apenas de Zé de Sarney. Ou seja: Zé, filho de Sarney de Araújo Costa. Em vez de reagir ao apelido, o político maranhense o incorporou e o transformou em sobrenome. Coadjuvante Sarney estava conformado com uma situação de absoluto coadjuvante na cena política que seu companheiro de jornada, Tancredo Neves, arquitetara. "Eu passei aquela campanha toda com um sorriso amarelo no rosto. Eu sabia da desconfiança que todos tinham de mim", revela, hoje, Sarney. Uma desconfiança que o ex-deputado baiano Chico Pinto, do grupo autêntico do PMDB (a ala dos políticos de esquerda) chegou a jogar na sua cara. "Tancredo teria legitimidade porque passou pela campanha das Diretas", disparou Chico Pinto. O homem escolhido para companheiro de chapa de Tancredo ficava deslocado nos comícios. Foi por insistência de Aureliano Chaves, vice-presidente no governo João Figueiredo e um dos artífices da dissidência que levou à formação da Aliança Liberal, nascedouro do atual PFL, que Sarney se tornou o vice. "Imaginavam que eu, por ter sido presidente do PDS, mapearia os possíveis votos governistas no Colégio Eleitoral", conta Sarney. Cinco anos depois, quando transmitiu seu cargo a Fernando Collor, Sarney chegou a pensar em repetir o gesto de Figueiredo na sua posse e sair pelos fundos. Segurou, porém, firmes as mãos de sua mulher, Marly, e de sua filha, Roseana. "Vou descer por onde entrei", falou, temendo vaias. "Os aplausos que tive coroaram a minha impressão de que aquilo tudo valeu a pena", recorda-se. O Ribamar que virou Sarney novamente tirava proveito dos fatos imprevistos da sua vida.