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SEM LENÇO E SEM DOCUMENTO - Márcio Accioly

O deputado Severino Cavalcanti emite sinais de que tomará providência há muito esperada pelo país: ele iria ressuscitar a CPI do setor elétrico, para investigar criminosas privatizações efetuadas na era FHC. A decisão, se acontecer, viria depois de bate-boca acontecido entre Severino e o líder do PSDB naquela Casa, deputado Alberto Goldman (SP), que tratou mal o presidente durante uma votação.


O deputado federal Severino Cavalcanti (PP-PE), presidente da Câmara, emite sinais de que tomará providência há muito esperada pelo país: ele iria ressuscitar a CPI do setor elétrico, para investigar criminosas privatizações efetuadas na era FHC (1995-2003). A decisão, se acontecer, viria depois de bate-boca acontecido entre Severino e o líder do PSDB naquela Casa, deputado Alberto Goldman (SP), que tratou mal o presidente durante uma votação. Se a CPI acontecer, o presidente da Câmara poderá se considerar redimido de todos os pecados. Pois, será constatado que FHC cometeu crimes de lesa-pátria, passível da mais rigorosa condenação. Por não haver punição no nosso país, por conta da leniência aplicada aos chamados criminosos de colarinho branco é que nos encontramos em petição de miséria. E grande parte fica soltando lorota como se fosse vestal. Na última sexta-feira, o líder tucano no Senado, Arthur Virgílio (AM), decidiu ironizar o desinteresse do PT no esclarecimento do assassinato de Celso Daniel (então prefeito de Santo André), dizendo: "- O ministro Zé Dirceu não ora mais para Santo André. Só quer saber de outros santos". A notícia, veiculada na coluna de Cláudio Humberto da segunda-feira (14), oferece idéia precisa da pouca vergonha instaurada. É certo que o PT não tem interesse em CPIS que desvendem a roubalheira da gestão FHC, porque sua própria administração chapinha na lama mais fétida de que se tem notícia. Basta lembrar o assassinato de Celso Daniel, cujo irmão, médico conceituado naquela cidade, declarou no inquérito policial que parte do dinheiro arrecadado no amplo esquema de corrupção montado "ia parar nas mãos do hoje ministro-chefe da Casa Civil, Zé Dirceu". Várias testemunhas ligadas ao caso já morreram misteriosamente. O principal acusado, "empresário" (entre aspas) Sérgio Gomes da Silva, vulgo "Sombra", trabalhava como secretário parlamentar no gabinete do então deputado federal (1987-91), Luiz Inácio Lula da Silva, que foi quem o apresentou a Celso Daniel. O Sombra na era nada na vida, não dispunha de um pau para espantar um cachorro, mas construiu fortuna inexplicável como empresário no setor de transportes, depois que foi trabalhar em Santo André. O que ele conta a respeito do seqüestro do prefeito, que apareceu morto poucos dias depois, não dá para emplacar nem como história da carochinha. Somente no Brasil é que se deixa livre, solto nas ruas, criminosos de tal periculosidade. O PT tem medo da investigação do assassinato de Santo André, assim como o Diabo tem da cruz. Da mesma forma que teme e por isso impediu a instalação da CPI dos Bingos, com a ajuda do então presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), pois sabia que ela iria cravar uma estaca no coração de sua administração vampiro. No início da gestão, em vez de confirmar compromissos assumidos em praça pública, o que Dom Luiz Inácio fez foi fechar os olhos a atos do ministro-chefe da Casa Civil, que negociou acordos vergonhosos com o mandarinato do PSDB. A administração petista não se contaminou ao subir a rampa do Palácio do Planalto. Ali, ela já chegou apodrecida. E a corrupção vem de longe. Vem desde o Araguaia, quando o então guerrilheiro José Genoíno traiu todos os companheiros, denunciando-os às forças de repressão logo no instante de sua captura (essa informação se encontra no livro "O Coronel Rompe o Silêncio", depoimento de Lício Ribeiro ao jornalista Luiz Maklouf de Carvalho). De maneira que os petistas parecem estar, no exato momento, expiando pecados novos e velhos. O ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), na época em que buscava a reeleição como parlamentar federal (2002), promoveu passeatas nas ruas de Osasco defendendo a instalação de "tantas CPIs quantas sejam necessárias para apurar o roubo praticado por FHC". Depois do pleito, disse numa entrevista que agira assim "apenas para garantir a reeleição". O PT foi varrido do mapa em centros nos quais tradicionalmente pontificava. A mentira tem pernas curtas e um dia a casa cai. Pesquisas divulgadas mostram que Dom Luiz Inácio seria reeleito, caso a disputa fosse daqui a um mês. É compreensível. Mas, faltando mais de um ano para as eleições presidenciais (previstas para outubro de 2006), ainda é muito cedo para se falar sobre favoritos. Muita água irá rolar pela ponte. O drama maior é a inexistência de alternativas, com tudo se prendendo a maniqueísmo que reduz drasticamente as opções. As viúvas de FHC desejam seu retorno em cima das falhas cometidas por Dom Luiz Inácio. Já os petistas, que deram seqüência ao mesmo entreguismo e patifarias da gestão anterior (depois de terem jurado combater as injustiças), pretendem repetir 2002. Isso, apesar de o atual presidente ter se enredado numa máquina burocrática que visivelmente desconhece e se mostrar, aos olhos de todos, inteiramente perdido. Email: [email protected]

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