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CRÔNICA DO AROLDO

O advogado que instruiu o processo o advertiu: "Aqui o senhor vai depender de sorte. O juiz da Primeira Vara está concedendo liminares; o da Segunda, não... Vamos entrar com o pedido, mas tudo dependerá de o senhor cair na Vara certa".


VARA MOLE, VARA DURA... João Adolfo, 50 anos, batalhador como muitos conterrâneos barnabés, leva vida sofrida; o que ganha mal dá para comer e financiar os estudos dos filhos. Sempre sobra um pouco de mês no seu salário. João, de repente, tomou uma decisão: - Vou fazer vestibular e cursar jornalismo. A família, exultante com sua determinação deu-lhe a maior força. João inscreveu-se no vestibular 2004 de uma universidade federal e passou a devorar livros revendo matérias estudadas há mais de trinta anos. Dia das provas de primeira fase do vestibular, João chegou cedinho ao local estabelecido. Com as provas já distribuídas na sala entrou, de repente, uma supervisora para grosseira e mal educadamente anunciar: - Houve um pequeno problema na impressão dos testes e estão faltando os espaços para responder as vinte últimas questões; escrevam após o sexagésimo quesito o número correspondente à questão respondida e, ao lado, sua opção de resposta. Os vestibulandos, atônitos e cheios de dúvidas, se perguntavam: "A correção não será por leitura ótica, como procederão com estas questões?" "Essa mudança sub-reptícia não deixa margem para fraudes?" "O correto não seria anular a prova?" "O edital não reza que devem ser anuladas essas questões?" Alguns, em protesto, entregaram as provas sem preencher os gabaritos; outros, João inclusive, seguiram as instruções da Comissão Permanente de Vestibular. Logo a imprensa divulgou que a Comissão, baseada no edital, decidiu anular aquelas questões, concedendo o benefício de pontuação a todos os concorrentes. João conferiu o gabarito e vibrou: com essa medida ele estava aprovado. Cauteloso, porém, decidiu esperar pelos acontecimentos. Dois dias depois os mesmos órgãos de divulgação informaram que o Ministério Público se pronunciara e decidira cancelar todo o certame; as datas para novos exames seriam divulgadas. João pensou: "Opa! Posso estudar mais um pouco as matérias em que tive dificuldades." Nova data foi definida para o exame, não sem mais um problema: os inscritos tiveram seus locais de provas modificados. "Quem não receber novo cartão de inscrição, procure a CPV - Comissão Permanente de Vestibular." Lá foi nosso herói e, depois de longa espera na fila, descobriu o seu novo endereço. João saiu da sala felicíssimo, pois o novo teste mostrou-se mais fácil que o anterior. Depois de algum tempo, publicada a pontuação geral dos vestibulandos, João, fazendo contas, ao ver-se classificado em 38º lugar, promoveu um baita churrasco para festejar a vitória parcial. Dias depois na relação dos setenta e cinco classificados para a segunda fase, o nome de nosso herói não aparecia. Explicação: candidatos que optaram por suas notas no ENEM - Exame Nacional de Ensino Médio - maiores que as obtidas no certame, tinham prioridade. João descabelou-se; mas fazer o quê? Nova esperança invadiu o coração de nosso herói quando viu manchete em jornal de grande circulação "VESTIBULAR - JUSTIÇA CONCEDE A CANDIDATO O DIREITO DE FAZER PROVA", João, também pleiteou na Justiça o direito de fazer as provas da segunda fase. O advogado que instruiu o processo o advertiu: "Aqui o senhor vai depender de sorte. O juiz da Primeira Vara está concedendo liminares; o da Segunda, não... Vamos entrar com o pedido, mas tudo dependerá de o senhor cair na Vara certa". João, coitado, caiu na Vara errada. Nosso herói, resignado, viu naquele mesmo periódico, no sábado de manhã, véspera das provas da segunda fase, nova manchete "VESTIBULAR - JUSTIÇA CONCEDE A TODOS OS CANDIDATOS SUB-JÚDICE O DIREITO DE FAZER PROVAS". Nosso vestilulando correu à Universidade, e, depois de longa espera em fila, habilitou-se ao certame. Foi brilhante nas provas: classificou-se em 14º lugar. Churrasco, festa, trote de amigos, cabeça pelada... João, finalmente, universitário! Já esquematizava maneiras de compatibilizar seu trabalho com as aulas na universidade e sonhava com sua vida acadêmica. Pobre João! Leitor assíduo que é dos periódicos de sua cidade, deparou-se, dias depois, com notícia informando que dos quarenta e três candidatos com recurso naquele vestibular, dezoito - aqueles que caíram na Vara errada - tiveram seus direitos de matrícula cassados. Hoje, quando perguntado sobre sua situação frente a universidade, João responde laconicamente: "- Tô igual a couro de pica: pra lá e pra cá. Pensava que a justiça fosse uma só; aprendi que dependemos de Varas e de interpretação de seus donos. Eu, infelizmente, caí na vara errada... Minha vontade é sair envarando todo o mundo..." Em tempo: João, persistente, prestou vestibular em Janeiro de 2005, mesma Universidade, mesmo curso e foi aprovado em 23º lugar. Quem quiser que faça uso das varas. A HISTÓRIA ACIMA É PURA FICÇÃO. FATOS, PESSOAS - VIVAS OU MORTAS - OU LUGARES QUE, EVENTUALMENTE, POSSAM SER IDENTIFICADOS AO LONGO DO TEXTO, SÃO MERAS COINCIDÊNCIAS. e-mail: [email protected]

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