- 05 de janeiro de 2026
Priscilla Borges Da equipe do Correio As crianças não têm dificuldades em responder àquela velha perguntinha: o que você vai ser quando crescer? As respostas, quase sempre automáticas, reúnem profissões que despertam o interesse dos pequenos. Sem grandes preocupações com o futuro, emprego ou dinheiro. Já na adolescência, fase em que se começa a pensar mais seriamente sobre o assunto, começam as dúvidas e as decisões ganham um certo peso. Elas marcam o início de uma nova vida. Talvez por isso mesmo o gosto por determinada área não seja mais o único critério utilizado pelos jovens na hora de escolher uma carreira. Segundo pesquisa realizada pelo portal educacional Universia Brasil em parceria com o Instituto de Pesquisas e-bit, o retorno financeiro da profissão determina a escolha de grande parte dos jovens. Do total de 4. 715 pessoas entrevistadas (com idade entre 15 e 30 anos), 39% admitem que definiram a carreira com a expectativa de ter bons salários no futuro. A preocupação com a remuneração ainda é maior entre os candidatos que não chegaram à universidade. Participaram do estudo 3.662 pré-universitários e 1.538 deles (42%) apontaram o retorno financeiro como o critério mais relevante durante a escolha. Os entrevistados puderam apresentar mais de uma razão que os levou a definir uma profissão. Apesar da preocupação com a remuneração, a maioria dos jovens em todas as fases (pré-universitários, universitários e pós-universitários) garante que a aptidão e o gosto pela área são critérios fundamentais na hora de optar por uma carreira profissional. Entre as outras justificativas apresentadas também aparecem - em menor escala - o reconhecimento profissional, a vontade de fazer algo pelo social e o desejo de seguir a carreira dos pais. A pesquisa foi realizada no final do ano passado. A idéia do Universia era conhecer e acompanhar o perfil dos usuários do portal para adequar melhor seu conteúdo aos interesses do público. Por isso, o Instituto e-bit utilizou o banco de dados do próprio site para selecionar os entrevistados. Os convites e os questionários da pesquisa foram enviados por e-mail. Responderam às perguntas pré-universitários, universitários e pós-universitários de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, Curitiba, Manaus e Porto Alegre. Participaram do estudo, estudantes que têm acesso à internet. Mas não necessariamente em casa. A proposta procurou selecionar jovens de várias classes econômicas. Realidade brasileira A preocupação da juventude com a questão financeira reflete as dificuldades enfrentadas no dia-a-dia por causa do quadro econômico do Brasil. "O investimento de tempo e dinheiro do estudante é significativo. Sendo assim, é natural que ele queira ter um retorno", afirma a diretora geral do Universia, Maria Voivodic. Por causa dessa lógica, Luciana Pereira, de 26 anos, decidiu cursar Direito. Para os jovens, a falta de dinheiro e a situação do país são os maiores obstáculos que enfrentarão para atingir seus objetivos. A pesquisa revela que 41% dos jovens esperam ter um emprego estável em cinco anos e 51% ter reconhecimento profissional no mesmo período. Caso de Uriane Oliveira, de 21 anos, que se dedica integralmente aos dois cursos que faz. Os anseios da juventude não param por aí. Eles reconhecem que não é fácil conseguir um bom emprego apenas com um diploma de graduação e se sentem desvalorizados no mercado de trabalho. Lar doce lar Essa conjuntura acaba modificando também os hábitos e o comportamento dos jovens. De acordo com o estudo, as baladas noturnas até de madrugada não fazem parte da rotina da maioria. Cerca de 62% dos entrevistados preferem aproveitar as horas livres lendo um bom livro, navegando pela internet ou assistindo televisão. A constatação de que os jovens brasileiros estão mais caseiros não surpreendeu a diretora do Universia. Na avaliação de Maria Voivodic, a falta de dinheiro e o medo da violência obrigam essa grande parcela da população a ficar em casa. "Além disso, muitos estudantes fazem estágio, trabalham o dia todo ou até conciliam duas graduações. Eles não têm a mesma disposição para passar as noites em festas, danceterias ou barzinhos", ressalta. A lista de atividades mais freqüentes dos jovens entrevistados reúne também: ficar em casa namorando ou conversando com amigos (48%), ir ao cinema, teatro, bibliotecas ou livrarias (26%) e praticar exercícios (28%). Thiago Mendonça de Souza, de 24 anos, faz parte desse time. Somente 18% dos jovens afirmam estar sempre em bares, danceterias ou restaurantes. Outro dado interessante é que a maioria dos entrevistados, mesmo os mais velhos, continua solteira (75%) e ainda mora com a família (60%). Só pensam em sair de casa quando casarem. Eles alegam o bom relacionamento com os pais e - mais uma vez - a falta de recursos financeiros como causas para continuarem sob o mesmo teto que a família. Mas o casamento não é um projeto distante não. A pesquisa mostra que 44% dos jovens sonham em casar e ter filhos em um futuro bem próximo, como Rafael Aviani Jucá, de 26 anos, e Lívia Cortázio, de 21. -------------------------------------------------------------------------------- Investimento garantido Para Luciana Pereira, de 26 anos, a recente formatura em Direito representa uma vitória. Durante seis longos anos, a jovem deu duro para pagar as mensalidades em uma instituição particular. Manteve dois empregos para dar conta do recado. Por isso mesmo, escolheu uma carreira em que tivesse garantias de emprego e bons salários no futuro. "Meus pais não tinham condições de me apoiar financeiramente. Não podia arriscar investir em uma carreira que não desse algum retorno", afirma. Luciana garante que quem estuda e se dedica à profissão tem sucesso garantido. "Apesar do mercado competitivo, há muita gente despreparada por aí. E as opções de emprego para quem faz Direito são muito amplas", destaca. Ela reconhece que todos esses cuidados pesaram bastante no momento de decidir que carreira seguir. Mas ressalta que o gosto pelo que se faz é fundamental. No caso dela, o interesse pelo curso de Direito surgiu trabalhando em um banco. Como grande parte dos jovens participantes da pesquisa do Universia, Luciana espera se estabilizar na profissão nos próximos cinco anos. A batalha já começou. No momento, ela se prepara para o Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Só os aprovados no teste podem exercer a advocacia. Depois, promete continuar estudando para concursos públicos. A idéia da jovem é conseguir emprego em um órgão no qual ela consiga advogar também. Os planos de prosperar não param por aí. Pós-graduação e mestrado também estão nos planos de Luciana, que tem consciência dos obstáculos que deverá enfrentar. "Os cursos de especialização são caros e o Brasil não investe muito nessa área", lamenta. Tanto esforço faz com que Luciana não tenha tanto ânimo de sair de casa. "Preciso abrir mão de tudo para estudar", diz. Ela admite que gosta de encontrar com amigos em barzinhos para jogar conversa fora, mas garante que troca tudo para ficar em casa com um bom livro. Cinema e academia são atividades que a jovem não dispensa. -------------------------------------------------------------------------------- 62% dos entrevistados aproveitam as horas de lazer em casa lendo, navegando pela internet, assistindo TV ou ouvindo música 48% têm hábito de ficar em casa com os amigos, namorada (o) 18% citaram os bares e danceterias como locais de lazer 97% utilizam e-mail 73% são usuários de sites de busca 75% dos jovens que estão se preparando para entrar na faculdade e universitários são solteiros 60% moram com os pais 38% elegem o retorno financeiro como motivo principal para a escolha profissional