- 03 de fevereiro de 2026
Edersen Lima, Editor Brasília - Entre tantas carências, o brasileiro não abre mão de ter uma especial por heróis. O esporte e as artes são os celeiros desses produtos "beatificáveis". Mas a política também é pródiga em fabricar os seus. Claro que mais parecendo aqueles produtos paraguaios ou de Taiwan. Na novela "Roque Santeiro", Dias Gomes mostrou como não apenas se fabrica falsos heróis, mas pseudo-santos. O coroinha foge com o crucifixo de ouro da igreja depois de trapacear um perigoso bandido que acaba sendo preso mas sem a prova do roubo ao lado de um corpo degolado, que a população acredita ser de Roque, o coroinha que perdeu a vida e "não deixou que o bandido fugisse". Roque virou sinônimo de heroísmo, milagre e peregrinação. A novela é um marco da televisão brasileira. Roraima não é diferente - tem até um bairro chamado Asa Branca, cidade fictícia de Roque Santeiro -. Há um herói na política que bate no peito e diz que é o mais atuante e influente bem-feitor do estado. Aquele que mais recursos já levou para Boa Vista. O mais puro, ético e limpo. Porém, ao longo de 10 anos de influência, bem-feitorias e gozar do privilégio de estar na tropa de choque do governo federal - qualquer governo - não resolveu o principal problema do estado: a questão fundiária. Já se passaram 10 anos, dos quais nove e meio, o senador Romero Jucá esteve lado-a-lado com os governos de FHC e Lula. Conseguiu ser líder dos dois. Relatou projetos importantes para o estado de São Paulo e bancos privados. Articulou inúmeras aprovações de leis indigestas para a sociedade como as reformas da previdência e a tributária, mas se mostra inábil ou incompetente em obter para Roraima, pelo menos, a transferência das terras do ex-território para o domínio do estado, coisa que a Constituição determina. Quanto a isso, recai sobre Romero denúncias de que sempre trabalhou contra o processo porque fortaleceria o governador de plantão em promover a reforma fundiária. Nesse quesito, realmente, não se tem notícia de que Romero tenha atuado com dedicação. Como também não se tem notícia sobre qual o seu verdadeiro posicionamento quanto à demarcação da Raposa/Serra do Sol. "A reserva precisa ser demarcada de forma que atenda os dois lados", repete o senador, sem ser claro em como se pode atender tanto os que querem a RSS contínua, como os que não querem. Sobram para Romero denúncias de ter recebido apoio nas eleições que disputou, de organizações defensoras da demarcação única da reserva, daí seu comportamento imóvel. Colabora com as suspeitas, o fato do senador ter se mantido ausente do estado durante clima tenso, único em sua história, quando produtores rurais e a maioria indígena contrária ao isolamento com a sociedade branca promoveram a maior manifestação contra a homologação contínua da RSS. Talvez seja por isso que os produtores roraimenses não lhe tenham feito qualquer homenagem ou manifestado qualquer agradecimento público pela defesa da manutenção do maior pólo econômico do estado. Não fizeram porque nesses 10 anos, Romero sempre esteve na sombra do muro, parecendo se esconder quando o assunto é questão fundiária. Mais recente. Ottomar Pinto esteve semana passada em audiência com Lula. Com apoio dos senadores Mozarildo Cavalcanti e Augusto Botelho defendeu abertamente a demarcação com exclusão da área produtiva. Romero, vice-líder do presidente no Senado, não foi. Roque Santeiro e a cidade de Asa Branca eram uma ficção cômica de Dias Gomes. Roraima e seus problemas são pura realidade que precisam ser resolvidos sem falsos milagres ou heróis de mentirinha. De capa e espada basta o Zorro.