- 05 de janeiro de 2026
Em 1979, o cardeal arcebispo de São Paulo, d. Evaristo Arns, dizia que o povo brasileiro trabalhava muito e ganhava muito pouco. Fazia, então, referência lamuriosa à questão social do país, havia muito mergulhada no calabouço da ditadura militar, vista por muitos como o grande Leviatã, que tantos órfãos produziu Brasil afora. O momento era de transição do regime forte para a democracia, ante à promessa de abertura política, ainda que lenta, gradual e segura, patrocinada pelo então presidente Ernesto Geisel. Vinte e cinco anos se passaram, e a situação ainda permanece a mesma. 2004 está em seu ocaso e o povo continua, igualmente, trabalhando muito e ganhando pouco. O metalúrgico e ex-retirante do sertão pernambucano Luis Inácio da Silva, rebatizado Lula, foi alçado ao posto mais alto do Planalto com o objetivo de assinar a carta de alforria desse povo, que se vê, há mais de 500 anos, espezinhado por oligarquias descompromissadas com os destinos do país. Ledo engano. Ao se instalar no trono do rei, rendeu-se ao stablishment. A política macroeconômica encetada a partir de 1.º de janeiro de 2003 vem rendendo lucros importantes. Isso não se pode negar. O país apresenta crescimento em sua economia, melhorias no nível de empregos, assim como a relação dívida/PIB etc. Mas tudo isso, definitivamente, não se traduz em melhorias de vida para a população mais carente. Essa expressiva porém esquecida fatia da sociedade continua a amargar números desalentadores. É possível até dizer que o Brasil tem sido mais benevolente com nações estrangeiras que com os seus próprios patrícios. Soldados brasileiros fazem a segurança pública no Haiti, enquanto os brasileiros vivem engaiolados em suas próprias casas, sem a mínima garantia de segurança, tanto nas grandes como nas pequenas cidades. Três meses atrás, o Brasil remeteu recursos consideráveis para o Paraguai, a título de ajuda humanitária a vítimas do megaincêndio num shopping de Assunção. Enquanto isso, as vítimas das alagações do Nordeste, registradas no início deste ano, muito pouco ou quase nada receberam do erário. Endividado até o pescoço mas posando de magnata do petróleo, o governo Lula anistia dívidas de países sul-americanos, como a Bolívia, e de republiquetas africanas como Cabo Verde, Moçambique e Gabão. Recentemente, ofereceu-se para ajudar financeiramente o Egito a combater uma praga de gafanhotos que se abateu sobre aquele país. Enquanto isso, os "gafanhotos" Brasil afora - não só em Roraima - consomem verbas destinadas à saúde pública, à educação, à moradia... Enquanto o Brasil posa de "papai-noel" para nações outras, o contingenciamento de recursos lança setores internos num verdadeiro deus-nos-acuda. A educação está vivendo a pão e água, enquanto boa parte dos recursos disponibilizados no Orçamento da União sequer chegou a ser empenhado tanto no ano passado como nesse que se finda. As estradas brasileiras jamais estiveram tão deterioradas como nos dias atuais. No setor da saúde, morre gente a três por quatro por exclusiva falta de verbas. Aliás, nessa república incompetente, segundo FHC, verbas até existem. Mas são canalizadas para prioridades outras que não a de salvar vidas humanas. Quem quiser ter saúde de qualidade que faça um plano no setor privado. Seria exagero, mas só falta agora exigir do povo práticas malthusianas. Em tempo: O projeto de Lei n.º 6.817, do deputado federal Celso Russomano, foi posto em pauta de votação nesta quarta-feira, de forma açodada, sem que tivesse antes passado por um debate mínimo nas Comissões da Câmara Federal. O projeto de Lei propunha a criação da Ordem dos Jornalistas do Brasil, ao qual foi apensado o projeto governamental que visava a criação do Conselho Federal de Jornalismo. O resultado não foi outro: a vala do esquecimento. Foi rejeitado. Uma pena. Essa era a oportunidade de nós, jornalistas, nos firmarmos como profissionais de fato e de direito frente aos donos dos grandes conglomerados de comunicação deste país. Continuaremos, portanto, sujeitos aos caprichos de empresários do setor que, antes de pensar no bem da sociedade, tem seus olhos e corações avaros voltados única e exclusivamente para o quanto poderão auferir de lucro com a atividade. Para eles, o que importa mesmo é a liberdade de empresa. Dane-se a liberdade de imprensa. A mesquinharia suplantou o bom senso. (*) Jornalista