- 05 de janeiro de 2026
Tempos de fartura. Era tanto dinheiro vindo de Brasília que os governantes do Estado tinham que inventar onde gastar. Resolveram, então, construir um conjunto residencial para executivos do primeiro escalão, invertendo o caminho percorrido pela capital federal, que havia leiloado todos os imóveis da Península dos Ministros e, paulatinamente, vendia os apartamentos funcionais. Ali, na margem direita do rio Branco, edificaram-se casas amplas e confortáveis, numa cópia quase perfeita dos ricos condomínios do sul do País, com piscina, playground, quadras de tênis, quadras polivalentes, campos de futebol - oficial e society, churrasqueiras, salão de festas, gramado sempre verde, limpo e aparado. Um luxo só! Mudou o governo, mudou o secretariado e, naturalmente, mudariam os inquilinos daquele paraíso; claro que as madames, esposas dos novos secretários de estado e presidentes de companhias governamentais, sentiam necessidade de reformar os imóveis e dar seus toques pessoais nas novas moradas. Mãos à obra; atirar com munição alheia é bom demais. Necessário lembrar que o novo governador e seus asseclas não prezavam nem um pouco a palavra honestidade e que a corrupção imperava no meio da gang recém montada. A Construtora A. Funda Ltda., espécie de empreiteira oficial daquela administração, foi agraciada (licitação pra quê?) com as obras e contrato de manutenção do conjunto. Tempos depois, todo mundo já aboletado naquele oásis oficial, tocou o telefone no escritório da construtora: "- Alô...! A. Funda...! Bom dia!" "- Por favor, aqui é da residência do Secretário de Finanças... Vocês precisam mandar alguém urgente pra capturar uma cobra que apareceu na nossa área de serviço!" Lá mandaram uma equipe de "cobreiros" para aprisionar a jararaca. No dia seguinte, oito e meia da manhã, novo telefonema: "- Alô...! A. Funda...! Bom dia!" "- Bom dia..., Aqui é doutora Gertrudes, consorte do Secretário de Planejamento. Tem uma ofídio enooorrmee dentro da minha sala de banho. Mandem um expert icontinenti para exterminar esse réptil asqueroso!" - Gertrudes tinha estudado até o quarto ano primário, mas, além de fazer questão se ser tratada por doutora, abusava do vernáculo. A empreiteira mandou nova equipe para aprisionar a cobra que incomodava doutora Gertrudes. Sábado, onze horas da noite, os donos da Construtora A. Funda estavam em animada rodada de uísque e bate papo quando tocou o celular do sócio-gerente que foi bombardeado pela mulher do presidente da Companhia de Desenvolvimento: "- Dr. Tobalo, aqui é a primeira-dama da Companhia de Desenvolvimento... Não dá pra entrar em nossa cozinha; tem uma cobra enrolada na perna da nossa mesa art-decó de jacarandá com tampo de mármore italiano... Mande alguém urgente!" - Ela, primeira-dama de empresa de economia mista, achava-se mais importante que a Lady Di e não perderia a chance de esnobar seu interlocutor. Tobalo, virou-se para seu sócio e comentou: "- Temos que arranjar alguém para retirar uma cobra na casa do presidente da Companhia de Desenvolvimento. Mano, como dá cobra naquele condomínio!" Libório, sócio da A. Funda, chocalhou o gelo no copo de uísque, tomou uma talagada e falou calmamente: "- Também, sócio..., tu quer o quê...? Ali só mora rato...!?" e-mail: [email protected]