- 05 de janeiro de 2026
Ao analisar alguns fatos que têm ocorrido ultimamente, lembrei-me de um episódio que deu no Fantástico, da Globo, faz algum tempo: determinado cidadão estava mais que injuriado porque um determinado processo que lhe era de vital importância não andava havia mais de dois anos. Estava engavetado em determinada secretaria de determinado Ministério. Resolveu, então, arrancar uma solução, ainda que "na marra". Preferiu, no entanto, usar da velha malandragem brasileira. Ligou, com tom autoritário, para o setor de protocolo do tal ministério: - Alô, aqui fala o assessor do Gabinete. Preciso saber como anda o processo n.º tal, que tem como interessado "Fulano de Tal". E isso é urgente, você está entendendo? Desnecessário dizer que o tal enunciado criou do outro lado da linha um "frisson" digno de ser transmitido ao vivo pela Sky. Produziu calafrios capazes de impulsionar quem o ouviu a tomar uma providência imediata. Se possível, até mesmo uma decisão final ao processo, com despacho positivo para o querelante. E sem delongas... Afinal, ele, o querelante, estava "em alta" no Gabinete. Não é preciso dizer aqui também que o receptor de tal telefonema sequer se deu ao trabalho de se inteirar sobre quem era o tal assessor e de qual Gabinete estava falando. O importante é que o homem falou com autoridade. E não convinha discutir se usava ou não gravata. Até porque homem de gravata se respeita, já pregava convincentemente o Jô na década de 80. O resultado de tal malandragem é que surtiu o efeito desejado. O homem teve o seu pleito concedido quase que instantaneamente. Episódio parecido foi levado ao ar pela TV Globo há duas semanas, no programa "Os Aspones", que vem gerando descontentamentos a torto e a direito entre funcionários públicos país afora. Por exclusiva falta do que fazer na repartição focalizada no programa, os "aspones" tramam as mais mirabolantes situações para infernizar cidadãos que têm a vida marcada por alguns senões. Uma das vítimas foi intimada a comparecer no balcão da repartição, levando alguns documentos. E, de quebra, convidado a prestar declarações, das quais poderia sair preso ou livre como um passarinho. Pelo sim, pelo não, a vítima atendeu à intimação. Diga-se, com disenteria de nervoso, como ficou Clodovil Hernandes ao não aceitar calçar as sandálias da humildade. No fim, descobriu que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto. Infelizmente, esse espectro está tomando conta do serviço público. É uma verdadeira "caça às bruxas". Algumas autoridades passaram a agir "pisando em ovos". Vendo fantasmas em todo canto. A menor atitude é tomada depois de pesar todos os prós e contras, muitas vezes com sérios prejuízos a terceiros. Desconfiam até da própria sombra. "Quando a barba do vizinho começa a arder, melhor botar a nossa de molho...". O Brasil está mudando. Todo dia se vê notícias na TV de que determinado grupo de corruptos que agem nos intestinos da máquina estatal cai nas mãos da Polícia Federal. Há quem diga que para essa gente estúpida, sem escrúpulos, que não se importa se suas ações espúrias serão responsáveis por mortes de inocentes em hospitais, está vivendo dias de vacas magras. O que não se pode, entretanto, é sair por aí vendo "mula sem cabeça" em todos os cantos. A honra de pessoas honradas deve ser preservada. Depois de se depenar a galinha no alto da torre, não se pode mais voltar as penas ao seu devido lugar. O denuncismo deve dar lugar a ações exaustivamente pesquisadas, sob pena de instituições sérias caírem no descrédito. Isso não é bom nem para a democracia, nem para ninguém. (*) Jornalista; escreve neste espaço às sextas-feiras; email: [email protected]