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Menino, traz a lupa! - (*) Francisco Espiridião

O que você, leitor, diria se o seu patrão lhe propusesse um aumento salarial de 0,01%? Mais ainda, se essa proposta viesse depois de dez anos de salário semi-estagnado, quando, nesse período, tivesse havido apenas dois aumentos, um de 3,5% e outro de 1%? Pois foi exatamente isso o que o governo "messiânico" de Luiz Inácio Lula da Silva propôs aos servidores públicos federais de todo o país.


O que você, leitor, diria se o seu patrão lhe propusesse um aumento salarial de 0,01%? Mais ainda, se essa proposta viesse depois de dez anos de salário semi-estagnado, quando, nesse período, tivesse havido apenas dois aumentos, um de 3,5% e outro de 1%? Pois foi exatamente isso o que o governo "messiânico" de Luiz Inácio Lula da Silva propôs aos servidores públicos federais de todo o país. A Medida Provisória propondo o estratosférico reajuste veio, como sói ocorrer no atual governo, revestida de generosidade. Tem efeito retroativo a janeiro deste ano de 2004. Para se entender a extensão de tamanha generosidade por parte do governo, um trabalhador que ganha R$ 1 mil por mês terá um substancial aumento mensal em seu salário de nada menos que R$ 0,10 (dez centavos). Como o aumento é retroativo, o salário de novembro de um servidor que ganha R$ 1 mil sairá no dia 2 de dezembro já acrescido da gorda fatia de R$ 1,30 (um real e trinta centavos). Esse extravagante valor se refere às parcelas dos 12 meses do ano, mais a parcela referente ao 13.º salário. Aí o amigo leitor perguntará: o que dá para fazer com o aumento de salário tão generosamente concedido? É fácil: mensalmente, não dá para comprar um pãozinho de 50 gramas, muito menos um cafezinho no boteco da esquina. Um pãozinho hoje está entre 25 e 30 centavos. Um cafezinho, não menos que 50 centavos. Mesmo assim, tão grande aumento não deve ser desprezado. Afinal, dá, sim, para comprar uma única balinha de hortelã. Esse é o governo do PT, o Partido dos Trabalhadores, em quem a grande maioria do povo brasileiro depositou suas esperanças, e que hoje se vê órfão de pai e mãe. É o governo que se orgulha de praticar superávits primários cada vez maiores, mês após mês, com o objetivo de pagar juros a banqueiros internacionais. Enquanto isso, faltam recursos para investimentos em infra-estrutura e o número de brasileiros vivendo na miséria cresce de forma geométrica na periferia dos centros urbanos. Esse mesmo governo negociou no fim do ano passado, no Congresso, a aprovação de uma Reforma da Previdência na qual os servidores públicos só amargaram perdas. A aprovação se deu sob promessa de que seria votada imediatamente uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional) para corrigir as distorções. Houve a convocação extraordinária do Congresso no início do ano, exclusivamente para votar a tal PEC. Nesse período, no entanto, falou-se de tudo, menos da bendita PEC. O pior de tudo é constatar que o governo age como um inimigo implacável de uma considerável fatia do povo que o ajudou a se estabelecer. A decisão do ministro Guido Mantega de conceder 0,01% de aumento salarial esteve longe de representar uma forma de corrigir distorções salariais. Teve o objetivo único de tirar de todos os servidores federais a oportunidade de reivindicar na Justiça o direito ao reajuste anual, que lhe é facultado a cada virada de ano. A Constituição determina a revisão anual, enquanto a Lei 10.331 estabelece janeiro como data-base. Com isso, ficou decretado o fim de qualquer negociação que diga respeito a aumento de salário na seara do governo federal. Afinal, 0,01% ou 100%, apesar de grande divergência em termos absolutos, semanticamente tanto um quanto o outro representam o mesmo valor nominal: aumento concedido. E pronto! Assim, nenhum servidor público federal poderá, amanhã, ir à Justiça argüindo não ter tido aumento salarial em 2004. Em tempo A sociedade voltou a vibrar na manhã de ontem, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Faraó, que despejou uma leva de distintas autoridades e empresários ilibados no fosso da Cadeia Pública. O motivo, uma besteira. Os oito surrupiaram quase 32 milhões de reais do erário. Coisinha à toa. (*) Jornalista; e-mail: [email protected]

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