- 05 de janeiro de 2026
Brasília - Vendo a inexperiência e a fragilidade de algumas autoridades estaduais e federais neófitos no trato com o poder efêmero que têm, me lembro de um fato que retrata bem a regra de que a vida dá voltas, giros, girões onde um dia você está por cima, no outro, poderá estar em baixo. Nada mais natural. Exemplifico, com o que ocorreu com o jornalista Alexandre Garcia, da TV Globo. Em 1981, Alexandre ocupava dois cargos importantes no governo do presidente João Figueiredo, o de secretário de Comunicação e o de porta-voz da Presidência. Aliás, apenas Alexandre Garcia ocupou simultaneamente os dois cargos, sempre bem divididos. Poderoso, influente e bem articulado, Alexandre era procurado de manhã, de tarde e de noite para informar sobre o que acontecia dentro do Palácio do Planalto; acomodar os interesses dos veículos de comunicação com suas pautas distintas e conjuntas, e para dar entrevistas. Numa dessas entrevistas, em 1981, o destino de Alexandre Garcia foi traçado. Falando à revista Homem (Playboy), o então porta-voz do último presidente-general, deixou-se fotografar de cueca. A linha da revista era praticamente a mesma de hoje, onde o assunto predominante era sexo. Então, nada mais natural. No entanto, não foi com tal naturalidade que o então líder do governo na Câmara dos Deputados, Odacir Klein, leu e viu a entrevista do porta-voz. Com a verve tradicional dos gaúchos, Odacir protestou veementemente na tribuna da Câmara, contra a permanência de Alexandre Garcia no governo. Tão eloqüente foi o discurso de Odacir Klein que, dois dias depois, Alexandre era mais um jornalista desempregado, queimado profissionalmente e não muito recomendável para os veículos de comunicação que quisessem manter uma boa relação com o governo. Durante três anos, ele viu o seu padrão de vida cair arrasadoramente. Viveu de free lance ou de bico, como entenderem melhor, até ser empregado na revista Manchete e de lá, ir para a TV Globo. Os tempos eram outros, vivia-se o regime democrático da Nova República. Mas eis que, as voltas que a vida dá, numa coincidência dessas que só os astros explicam, Alexandre Garcia, inaugura no Jornal Nacional do dia 9 de agosto de 1996, um formato que se tornou rotineiro na apresentação das matérias que serão destaques da edição a ser apresentada. De fora do estúdio, na via principal do Lago Norte, aqui em Brasília, Alexandre Garcia, fez a seguinte chamada: "O filho do ministro que está promovendo a maior campanha de educação no trânsito, atropela, não socorre e mata um pedestre. O motorista, que estava embriagado, é filho do ministro Odacir Klein, dos Transportes, que estava dentro do veículo". Três dias depois, Klein estava fora do Ministério dos Transportes apesar de ter seu trabalho reconhecido como um dos mais importantes do ministério. Cumpriu discretamente o mandato de deputado federal até fevereiro de 1999 e voltou a advogar no Rio Grande do Sul. Não se elegeu a mais nada Imagino que, se isso aconteceu com um político experiente e advogado de reconhecida carreira como Odacir Klein, o que não poderá acontecer com quem é inexperiente e de visível fragilidade psicológica, independente de ser político, juiz federal, economista famoso ou médico renomado, que pode trazer ou esconder erros de profissão ou de aberrações de caráter? Uma regra simples como as voltas que a vida dá, de tão simples acaba sendo esquecida. É aí que está o calcanhar de Aquiles da autoridade que não tem experiência e preparo suficientes para a responsabilidade do cargo que ocupa. Nada mais natural. |