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Limites da vaidade

Embalados pela indústria da beleza, homens e mulheres fazem de tudo em nome da vaidade - e acabam pagando um preço alto por isso.


Da Revista Época ELISA MARTINS E INÊS DE CASTRO O mito de Narciso é uma dessas fábulas que explicam até onde pode ir a fraqueza humana. Apaixonado pela beleza de seu reflexo em um lago, o jovem orgulhoso parou de comer e de beber, até que morreu admirando a própria imagem. A mitologia antiga ajuda a explicar a natureza humana até os dias de hoje. Uma pesquisa realizada neste ano em dez países pelas professoras Suzy Orbach, da London School of Economics, e Nancy Etcoff, de Harvard, trouxe alguns resultados assustadores (leia os quadros ao longo da reportagem). Descobriu que, no Brasil, o peso e a beleza do corpo influem mais na auto-estima que sucesso na profissão, fé religiosa ou número de amigos. Apenas 7% das mulheres se consideram bonitas e, por conta disso, 54% se dizem dispostas a fazer cirurgias plásticas. Essa é a armadilha. A tecnologia e a medicina estética progrediram tanto que os recursos para embelezamento de 30 anos atrás hoje parecem medievais. Mas, junto com as novidades, surgiu uma série de riscos - e pacientes que muitas vezes preferem encará-los, mesmo avisados de que determinado tratamento não é indicado para seu caso. Se tivesse pensado mais, a dona de casa carioca Rita Bensussan, de 50 anos, não teria feito lipoaspiração. Magra, cismou de reduzir os culotes. Em 1997, procurou um cirurgião plástico. Ele se negou a fazer a operação. ''Disse que eu não precisava'', conta Rita. Insatisfeita com a recusa, foi a outro médico, que topou. O resultado foi uma pele cheia de ondulações e um lado do corpo mais gordo que o outro. ''Parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim'', lembra. Nos últimos seis anos, Rita fez outras três lipos para corrigir o estrago. ''Quem tenta melhorar o que não precisa pode ter um resultado pior que o inicial'', alerta Aloizio de Souza, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Estética do Rio de Janeiro. ''É importante procurar um médico que estabeleça o limite entre o que é necessário e o que é inútil.'' Em geral, quem investe na contribuição da tecnologia para a beleza não fica só na primeira aposta. Há dois anos, Rita também procurou um dentista. Ela tinha dentes perfeitos, mas queria trocar as restaurações metálicas por outras da cor do dente. Acabou arranjando um distúrbio na articulação da boca, que causou dor de cabeça, de coluna e até perda de um dente. ''Não conseguia mais dormir, tinha medo de sorrir e só chorava'', lembra. Rita colocou um aparelho ortodôntico para corrigir a mastigação, implantou o dente perdido e trocou algumas das restaurações metálicas que queria. O tratamento só será concluído daqui a dois anos, quando tirar o aparelho. ''Há pacientes que já chegam com idéia fixa, praticamente impondo o que devemos fazer'', explica Thereza Christina Monteiro, dentista responsável pelo novo sorriso de Rita. O que você faria para ter uma pele dourada, barriga de tanque, seios mirando as alturas, nenhum buraquinho de celulite, tórax esculpido em detalhes e rosto esticado sem sombra de rugas? A pesquisa global da beleza mostrou que 7% das brasileiras já fizeram plástica. Entre as 3.200 mulheres entrevistadas ao redor do mundo, as brasileiras, acredite, foram as vice-campeãs na categoria insatisfação com a própria imagem, perdendo apenas para as japonesas. Tão alarmante quanto inacreditável é o dado que aponta que 10% aceitariam perder 25% da inteligência - desde que isso as tornasse 25% mais belas. ''Existe uma pressão comercial muito forte obrigando mulheres e homens a seguir um padrão de beleza'', diz a psicanalista Susie Orbach, que atendeu Lady Di quando a princesa sofria por se achar gorda. ''Enquanto a cultura não assimilar outros modelos estéticos, a maioria continuará vulnerável às armadilhas da vaidade.''

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