- 03 de fevereiro de 2026
Paloma Oliveto Da equipe do Correio O número de brasileiros que freqüentam curso superior cresceu 11,7% no ano passado. A quantidade de professores também aumentou: são 11,5% a mais que em 2002. Apesar disso, a oferta de vagas nas faculdades e universidades estatais encolheu 4,8%. O Censo da Educação Superior de 2003, divulgado ontem pelo ministro Tarso Genro e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), traçou o perfil das instituições públicas e particulares e foi o primeiro a refletir o governo Luiz Inácio Lula da Silva. Três milhões e novecentas mil pessoas estavam matriculadas nas 1.859 unidades de ensino superior em 2003. Assim como nos anos anteriores, a quantidade de instituições privadas é muito maior: 1.652, contra apenas 207 públicas. Em 2002, havia 195 estatais e 1.442 faculdades e universidades particulares. Segundo o levantamento, o número de vagas oferecidas no ano passado foi maior que o de alunos egressos do ensino médio. Enquanto os vestibulares e outros processos de seleção ofereceram dois milhões de vagas, 1,88 milhão de alunos concluíram o ciclo básico da educação. Fato inédito na história do censo. Nas instituições privadas, 42,2% das vagas não foram preenchidas, número 439% vezes maior que há cinco anos. ''Essa ociosidade é escandalosa. Milhões de jovens querem freqüentar o ensino superior, mas não conseguem porque não podem pagar pelos cursos. É preciso estimular mais políticas educacionais que abram espaços para os estudantes nessas instituições privadas'', disse Tarso Genro. Para o ministro, o fundo de financiamento deve ser expandido. Outra saída, segundo Tarso, é a ampliação de programas como o Universidade para Todos (Prouni), que oferece bolsas integrais e parciais a alunos carentes e egressos da rede pública. Pelo programa, que vigora por medida provisória, as instituições classificadas como filantrópicas devem destinar 20% de suas receitas brutas às bolsas. Em compensação, as instituições têm isenção fiscal. O diretor de Estatísticas e Avaliação da Educação Superior do MEC/Inep, Dilvo Ristoff, ressaltou que, sem políticas voltadas à população de baixa renda, será muito difícil atingir a meta de 40% de brasileiros matriculados em cursos superiores até 2011. Segundo o presidente do Inep, Eliezer Pacheco, dificilmente o país vai conseguir alcançar as metas do Plano Nacional de Educação (PNE), que prevêem investimento de 7% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação. Atualmente, esse índice é de 4%. Dilema estudantil Juliana Cardoso dos Anjos, 20 anos, é uma entre muitos estudantes que terminaram o ensino médio no ano passado, mas não conseguiram vaga nas instituições públicas nem podem pagar pelo curso nas particulares. Em 2001 e 2002, a ex-estudante do Centro de Ensino Médio de Taguatinga Norte prestou os exames do Programa de Avaliação Seriada (PAS) e, como não obteve pontuação mínima para o curso escolhido, de Psicologia, desistiu do PAS em 2003. Desempregada, Juliana está estudando para concurso público. ''Se eu passar, vou poder pagar uma faculdade'', diz. O irmão mais velho, Leonardo, formou-se em Geografia no ano passado. Só conseguiu fazer o curso em uma faculdade particular porque amigos e familiares pagaram as mensalidades. Com o outro irmão, aconteceu a mesma coisa. O rapaz passou no vestibular de uma instituição privada e não conseguiu financiamento do Ministério da Educação. O jeito foi contar com a ajuda das mesmas pessoas que possibilitaram a formatura de Leonardo. ''Como o Ricardo ainda está na faculdade, não posso pedir para os parentes pagarem para mim também'', resigna-se Juliana. Cursos noturnos Outro problema apontado pelo Censo é a distribuição de estudantes por turnos. Nas instituições particulares, mais que o dobro de matrículas correspondem a cursos noturnos, enquanto nas estatais a maioria dos alunos estuda pela manhã. ''A principal oportunidade de acesso à educação superior para o aluno trabalhador, isto é, para o aluno de baixa renda, encontra-se no ensino pago'', diz o estudo. ''É uma das grandes deformidades do ensino superior'', afirma o ministro da Educação. Para Tarso Genro, as novas políticas educacionais precisam incentivar a abertura de mais cursos noturnos. O ministério gasta por ano R$ 1 bilhão com o Financiamento Estudantil (Fies). Com esse valor, seria possível criar 90 mil vagas noturnas nas instituições públicas: 60 mil nas federais e 30 mil nas estaduais. Os disparates também são evidentes quando se compara o número de matrículas por região. O Sudeste concentra 49% do total de matrículas, enquanto no Nordeste a percentagem é de 16%. Segundo o Censo, 19% dos alunos da graduação estão no Sul; 5,9% no Norte, e 9,5% no Centro-Oeste.