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A PROMESSA - Por Aroldo Pinheiro

Um forte trouxe um acampamento que virou fazenda, que virou um aglomerado, que virou uma freguesia, que virou uma colônia, que virou uma vila, que virou uma cidade; cidade pequenina, mas cidade. Alguns casarões na beira do rio acomodavam suas figuras mais abastadas e ilustres, a administração e, no meio de enorme descampado, a igreja.


Um forte trouxe um acampamento que virou fazenda, que virou um aglomerado, que virou uma freguesia, que virou uma colônia, que virou uma vila, que virou uma cidade; cidade pequenina, mas cidade. Alguns casarões na beira do rio acomodavam suas figuras mais abastadas e ilustres, a administração e, no meio de enorme descampado, a igreja. Cercando este adro, havia um colégio administrado pelos padres, uma casa onde as freiras exploravam as meninas do interior em semi-escravidão, pequeno e incipiente comércio composto por um armazém, duas mercearias, três bares, uma farmácia, uma serralheria com o imponente nome de Oficina Fé Em Deus e duas pensões; mais adiante, numa ruazinha estreita o Restaurante da Deusa; no outro quarteirão, o Hotel Oriental e, por trás deste, o puteiro. Claro, cidade que se preze tem que ter pelo menos um puteiro. José Torquato foi um dos primeiros a chegar na região; era um homenzarrão de quase dois metros, espadaúdo e cara de mau. Dizia-se que era primo de Lampião e que foi um dos poucos a escapar da volante que dizimou o bando de cangaceiros; ele não confirmava nem desmentia. Carregava na cintura um trezoitão com onze riscas em baixo relevo feitas a canivete no cabo de madeira; marcas das vidas por ele tiradas. Toquinha, como era conhecido, tinha poucos amigos, sua figura impunha medo e respeito; ao chegar em algum recinto, as pessoas faziam vênia e lhe abriam caminho. Toquinha, pouco tempo depois de chegado, grilou umas terras a dezoito horas de canoa, rio acima; numa maloca próxima simpatizou com Jandira, cabocla forte, bonita e trabalhadeira, e amancebaram-se. O tempo foi passando e as esperanças de ter um herdeiro desvaneceram-se; Jandira, devido ao útero virado, não engravidava. Sua irmã, Bartira, engraçou-se de um padre italiano, e, logo, deu à luz "um filho de Deus"; esse menino nem tinha mamado em seu peito pela primeira vez, quando ela, anêmica e fragilizada, esvaiu-se em incontrolável hemorragia. Ao voltar do enterro, Jandira trouxe consigo o rebento para criar. Toquinha simpatizou com o menino e, para perpetuar-se, deu-lhe o nome José Torquato Filho. Toquinha Filho cresceu porque Deus quis. Aos doze anos era um menino raquítico, mais amarelo do que pilha Ray-o-vac; suas perninhas finas mal suportavam o peso da barriga proeminente e a cabeça descomunal ornada por duas enormes orelhas de abano; seus olhos verdes e graúdos eram aboticados como se quisessem pular das órbitas. Menino feio tava ali!!! Aquela coisa amanheceu um dia com os olhos perdidos no teto, sem ânimo sequer para levantar-se da rede imunda em que dormia. Os pais adotivos, muito preocupados, fizeram mil tentativas para curá-lo; chás de tudo que é jeito com ervas variadas, rezas, benzedeiras e pajelanças. E o menino nada...; subsistia dos mingaus-de-caridade e papas de maisena, únicos alimentos que seu estômago aceitava. Aquele casebre foi invadido pela tristeza, apatia e desânimo. Maio era único mês em que a cidade parecia ter vida; as pessoas dos lugares mais distantes vinham para festejar e colocar suas obrigações cristãs, cidadãs e pagãs em dia: batizava-se, fazia-se primeira comunhão, crismava-se, casava-se, registrava-se, comprava-se, vendia-se e festava-se muito. A quermesse era muito bem freqüentada com seus bingos, sorteios, rifas, leilões, brincadeiras, paqueras, namoros, acochos, cabaços, serviço de alto-falantes e forró. No dia 13 fazia-se longa e organizada procissão em homenagem à padroeira, onde os fiéis pagavam promessas antigas, reformavam as mais recentes, faziam novas ou simplesmente renovavam seus votos à Santa. Dia 11 daquele mês, de manhã bem cedo, Toquinha mandou que a mulher se arrumasse com o menino, pois tinha negócios a resolver na cidadezinha e, quem sabe, encontraria algum médico da capital que pudesse diagnosticar e curar seu herdeiro. Depois de dezessete longas horas descendo o rio, sob o chape-chape dos remos de seus guaxebas chegaram ao porto do lugarejo. Toquinha, cedo, descobriu que suas esperanças quanto ao menino foram vãs: nem só não tinha nenhum médico da capital, como o único médico residente estava viajando. Jandira, com medo e com jeitinho, resolveu apelar para o coração de pedra do companheiro: "- Toquinha, sei que tu num é chegado nas coisas de Deus... Quem sabe estas provações que nós tamo vivendo não são castigo do céu? Talvez se tu fosse aos pés de Nossa Senhora e fizesse uma promessa bem forte, ela curava o menino... Seu Vieirão que tem o passado mais sujo que o teu, fez promessa e conseguiu curar a bicheira que tava matando o seu cavalo Zás-trás..." Toquinha não dormiu; passou a noite pensando nas palavras da mulher... Levantou-se pela manhã, saiu com os capangas para um botequim e passou horas tomando cerveja e remoendo a sugestão. Ao meio dia, antes certificando-se de que esta se encontrava vazia, nosso herói entrou na igreja, curvou-se em respeito frente ao altar, tirou o chapéu, ajoelhou-se aos pés da imagem de Nossa Senhora e, em voz alta, começou uma conversa com a Santa: " - Minha Nossa Senhora..., me perdoe..., eu tô aqui meio sem jeito, pois sei que sou pecador dos brabos... Na minha vida fiz muito mais errado do que certo... Jandira, minha patroa, me convenceu a vir aqui conversar com vosmicê... A senhora deve saber..., eu tô aqui por causa de meu filho..., ninguém consegue sarar o mal que lhe atacou... Prometo que se a senhora trouxer a cura pra esse menino, eu vou tentar ser um homem bom..; na sua festa do próximo ano eu trago a minha melhor vaca para ser leiloada na quermesse e dou todo o apurado pra sua igreja.... Prometo, também, minha Santinha, que na procissão eu saio com os pés descalços, a perna esquerda da calça arregaçada, raspo os cabelos e o bigode e carrego durante todo o trajeto uma pedra de 10 quilos na cabeça..." De repente ele parou um pouquinho, pensou em como seria ridícula a sua figura no cortejo e acrescentou: "- Agora..., minha Santinha..., se aparecer um fela-da-puta pra rir da minha cara, eu juro que eu como ele na bala..., Amém..."

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