- 03 de fevereiro de 2026
Brasília - É incompreensível a situação vivida pelo estado de Roraima, com a omissão do Poder Judiciário no que se refere ao caos político estabelecido. O atual governador, Flamarion Portela, cassado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), continua à frente do Executivo como se nada houvesse acontecido. Depois do primeiro round, o TSE não tomou qualquer medida complementar que definisse a situação. Que fazer? Realizar novas eleições? Dar posse ao segundo colocado, Ottomar de Sousa Pinto, como seria de se esperar? A resposta, depois de mais de 60 dias, é o mais profundo silêncio. O isolamento de Roraima, no extremo Norte do país, contribui para esse quadro bizarro onde um governador não o é mais de direito, mas continua de fato. Dessa forma, Flamarion continua a despachar normalmente, cercado de escândalos e suspeitas, à revelia da maioria dos roraimenses, sem conseguir sair às ruas, pois é vaiado e ameaçado até de agressão física aonde quer que se disponha ir. Pior, aos velhos escândalos, somam-se novos, em produção contínua, acumulando-se sem solução. O irmão do governador, Audemar Carvalho de Souza, possui uma panificadora que se constitui na mais polivalente de que se tem notícia na história daquele estado: ela é capaz de prover a administração pública desde a mais simples porca ou parafuso que se destine aos mais diversos fins, passando pelo fornecimento normal de pães e massas alimentícias, até a distribuição de tijolos, merenda escolar, concreto e o que se possa crer e imaginar. Impunidade, bandalheira, pouca-vergonha, tudo aquilo herdado da colonização portuguesa foi aprimorado e burilado no mais requintado estilo do mau comportamento adotado pelas altas esferas de insensíveis elites. O poder público no Brasil é semelhante a um imenso avestruz: a cabeça enfiada e o corpo apodrecido a exibir todas as causas de nossas mazelas sociais. Como é que se pode exigir bom procedimento com tais exemplos? Num país em que a maioria dos mandatos eletivos é comprada a peso de ouro, na distribuição de bicicletas, cestas básicas, ou dinheiro grosso entregue nas mãos de cabos eleitorais eficientes, a demora em se fazer Justiça num caso clamoroso como o de Roraima, causa graves preocupações. Boa Vista, sem dúvida nenhuma uma das mais aprazíveis cidades da Região Amazônica, tem cerca de 60% de sua população situada na linha ou abaixo da linha de pobreza. É a quinta mais violenta do país, segundo dados da ONU. Na última campanha eleitoral, o candidato Júlio Martins (PSDB), mostrou com clareza a existência de duas cidades dentro daquele município. Na primeira delas, reside uma população com acesso mínimo a serviços prestados pelo poder público: hospitais (ainda que funcionando de forma precária, sem medicamento), pronto-socorro (entregue às baratas), um Hospital da Criança com a aparelhagem sucatada, além de ruas iluminadas e floridas, contrasta com a miséria absoluta que se verifica nos bairros afastados da periferia. Na segunda cidade, encontram-se milhares de crianças com a boca apodrecida, a segunda dentição por cima da primeira, sem assistência médica, sem postos de saúde e sem escolas de ensino fundamental. A própria prefeita, Teresa Jucá (PPS), reeleita com mais de 53 por cento dos votos, reconheceu, em entrevista à Folha de Boa Vista, que mais de 17 mil crianças não têm creche. Nada se resolve, nada! Enquanto isso, no Brasil dos altos escalões, resta a surdez ao clamor dos roraimenses. Email: [email protected]