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Gasolina sofrerá aumento em torno de 9%

Apesar das constantes declarações do presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, de que a estatal ainda não se decidiu pelo aumento dos combustíveis, todo o mercado financeiro dá como certo o reajuste até o final de outubro, quando se encerrará o segundo turno das eleições municipais. Nas contas dos especialistas, considerando o atual preço do barril do petróleo, que fechou ontem a US$ 49,90, com alta de 0,52% e novo recorde histórico, o aumento da gasolina nas refinarias ficará entre 10% e 12%, resultando em reajuste para os consumidores entre 7% e 9,6%.


Vicente Nunes e Theo Saad Da equipe do Correio Apesar das constantes declarações do presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, de que a estatal ainda não se decidiu pelo aumento dos combustíveis, todo o mercado financeiro dá como certo o reajuste até o final de outubro, quando se encerrará o segundo turno das eleições municipais. Nas contas dos especialistas, considerando o atual preço do barril do petróleo, que fechou ontem a US$ 49,90, com alta de 0,52% e novo recorde histórico, o aumento da gasolina nas refinarias ficará entre 10% e 12%, resultando em reajuste para os consumidores entre 7% e 9,6%. Há a possibilidade, no entanto, de a Petrobras dividir o aumento da gasolina - que se estenderá ao óleo diesel e gás de cozinha - em duas parcelas, para diluir o impacto da medida sobre a inflação. Pelos cálculos do economista-chefe da Consultoria Global Invest, Alex Agostini, se a gasolina subir 7% nas bombas dos postos, o reflexo sobre o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência no sistema de metas inflacionárias, ficará entre 0,17 e 0,20 ponto percentual. Nas contas da economista Carla Bernardes, da Modal Asset Management, um aumento da gasolina de 9,6% para os consumidores impactará o IPCA em 0,38 ponto percentual. O governo está convencido de que o aumento dos combustíveis terá que ocorrer em outubro para que todo o impacto inflacionário seja captado pelo IPCA neste ano, já que o índice ficará mesmo próximo do teto da meta, de 8%, e porque há chances de os preços dos alimentos, que estão em queda, anularem os efeitos da decisão da Petrobras. Se o aumento ficar para o ano que vem, entende o governo, a margem de manobra do Banco Central para fazer com que a inflação convirja para a meta de 5,1% ficará muito mais estreita. Segundo os especialistas, os preços atuais dos combustíveis no país estão compatíveis com o barril do petróleo cotado a US$ 36. Como em alguns momentos das negociações de ontem, o preço do óleo ultrapassou a barreira dos US$ 50, as chances de reajustes nos preços da Petrobras se tornaram reais. Ontem, o presidente da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep), Purnomo Yusgiantoro, evitou dar esperanças de um preço menor: 'Não podemos fazer nada agora', disse. Nigéria, o fato novo A despeito da clara vinculação da demora da Petrobras em aumentar os preços dos combustíveis com as eleições municipais, o presidente da estatal, José Eduardo Dutra, refuta tal afirmação. 'O que falei na semana passada já não vale para esta semana. A decisão é tomada no dia a dia', disse. Na semana passada, ele afirmou serem necessários mais dez dias de avaliação para que a estatal tomasse uma posição sobre o reajuste. O prazo coincide com o fim do primeiro turno das eleições municipais. 'Não somos pautados pelas eleições', assegurou. Na avaliação de Dutra, se há um fator novo e preocupante que pode influenciar os preços dos combustíveis no país é a crise política na Nigéria, onde grupos rebeldes ameaçam as empresas petrolíferas. Para o Brasil, essa crise ganha maiores proporções, porque importante parcela do óleo importado pela Petrobras vem daquele país. O presidente da estatal disse ainda que a empresa acompanha atentamente as cotações internacionais do petróleo, mas considera uma cesta de óleos baseada em vários mercados para a formação dos preços internos dos combustíveis. 'São números internos. Não pretendemos divulgá-los', frisou. Perdas dos acionistas De acordo com o diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), Adriano Pires, os constantes adiamentos do reajuste dos combustíveis estão levando a Petrobras e seus acionistas a perderem dinheiro. 'A defasagem entre os preços do mercado internacional e do doméstico faz a Petrobras perder cerca de R$ 25 milhões por dia', calculou. Em 2003, acrescentou Pires, a Petrobras cobrou no mercado interno preços acima dos internacionais, tendo acumulado cerca de R$ 2 bilhões, segundo Pires. 'Este ano, a empresa já perdeu esse dinheiro e outros R$ 700 milhões', afirmou. Pelos seus cálculos, os preços da gasolina, do óleo diesel e do gás de cozinha na refinaria estão defasados em 19%, 28% e 36%, respectivamente, em relação aos cobrados no mercado internacional. Na opinião de Pires, a situação tende a piorar. 'Vejo uma probabilidade maior de o barril chegar a US$ 60 do que recuar para US$ 40', disse. Vários fatores contribuem para essa previsão: a falta de investimentos na extração de petróleo na Venezuela, as ameaças de guerra civil na Nigéria, a instabilidade institucional no Iraque, o descontrole dos radicais na Arábia Saudita e os problemas financeiros da maior empresa russa do setor, a Yukos Para o diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Sérgio Gomes de Almeida, a alta do petróleo traz dois problemas principais ao país. Um é o aumento da inflação, que poderá reduzir o consumo e interromper o crescimento econômico. O segundo é a perda de competitividade industrial, por conta dos aumentos nos insumos, que prejudicaria as exportações. -------------------------------------------------------------------------------- análise da notícia Desgaste adiado A decisão da Petrobras, sob orientação do Palácio do Planalto, de conter ao máximo os reajustes dos combustíveis tem uma explicação lógica: o aumento desses produtos contamina toda a economia, cujo ritmo de crescimento aponta para uma expansão próxima de 5% neste ano. Na avaliação do Planalto, esse desgaste pode ser adiado por mais algumas semanas, uma vez que o governo enfrentou, há 15 dias, duras críticas pelo fato de o Comitê de Política Monetária (Copom) ter aumentado as taxas de juros, alegando haver pressões inflacionárias que podiam pôr a perder as já conquistas obtidas. Para o governo, conjugar elevação de juros e dos combustíveis agora, às vésperas das eleições municipais, seria uma bomba muito grande para ser desarmada. Como sabe, porém, que a Petrobras não poderá fugir do reajuste, o governo montou uma estratégia para fazer o menor estrago possível. O aumento dos combustíveis deverá ser anunciado na segunda quinzena de outubro, para que seus efeitos sejam captados pela inflação ao longo de dois meses, evitando sobressaltos entre os agentes econômicos. Essa estratégia funcionou em junho passado, quando houve o último reajuste desses produtos. (VN)

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