"Dentro de algumas horas chego ao Brasil, e já sinto o coração cheio de alegria por em breve estar celebrando com vocês a 28ª Jornada Mundial da Juventude", escreveu o papa Francisco, na página em português de seu Twitter, ao decolar de Roma (Itália) em direção ao Rio de Janeiro na manhã desta segunda-feira (22) Reprodução
A atual edição da Jornada Mundial da Juventude, a primeira sob liderança do papa Francisco, será utilizada para divulgar a nova fase da Igreja Católica, iniciada com a renúncia de Bento 16 e a escolha de Jorge Mario Bergoglio para o pontificado. Essa é a avaliação dos teólogos Antonio Manzatto, assessor de Relações Institucionais e Internacionais da PUC-SP (Pontifica Universidade Católica de São Paulo), e Leonardo Boff, frei expoente da Teologia da Libertação no Brasil.
"A Jornada não vai proporcionar mudanças propriamente ditas para a Igreja, mas ela acontece durante um processo de transformação e servirá como divulgação dessa fase, que foi inaugurada com a renúncia do Bento 16, se reforçou com a eleição do papa Francisco e se consolidou com as ações do novo pontificado", afirma Manzatto.
Nos primeiros cem dias a frente do Vaticano, Francisco abandonou regalias, abdicou itens de luxo que normalmente acompanham o pontífice e conclamou a Igreja a ser mais pobre. Bergoglio também denunciou a indiferença dos ricos em relação aos pobres, atacou a "tirania do dinheiro" e não poupou de críticas o capitalismo.
Para Manzatto, o "testemunho pessoal do papa auxilia a Igreja a transformar-se, a tornar-se mais pobre e pastoral". "Ele também já tem instalado várias comissões estratégicas em direção ao processo de transformação nas estruturas que derrubaram Bento 16. São atitudes em direção de uma administração mais transparente e livre da burocracia do mundo e ao mesmo tempo mais próxima dos fiéis."
Boff afirma que, antes de iniciar reformas na Cúria Romana, Francisco promove transformações no próprio papado. "Ele é um papa que deixa o palácio, mora onde todos os hóspedes moram, renuncia a títulos de poder, se sente mais Bispo de Roma do que papa e pede para não ser chamado de sua santidade. Com isso, ele quer dizer 'nós somos irmãos ou irmãs', 'estou no meio de vocês'. É uma perspectiva diferente, mais ligada à vida cotidiana dos fieis, à capacidade de perdão e misericórdia."
O teólogo acredita que, na Jornada, Francisco "dará as linhas básicas que vão ser a tônica do seu pontificado". "Ele já deu sinais que vai numa linha de abertura, de diálogo, de aceitar as diferenças com judeus e muçulmanos", disse Boff.
"A intenção originária da Jornada era dar visibilidade à Igreja Católica e ao cristianismo. O papa Francisco vai ter uma visão mais aberta. Ele coloca acento não na Igreja Católica, mas nos povos do mundo. Enfatiza que Deus é de todos, não só dos católicos", afirma o teólogo.
Segundo fontes da Secretaria de Estado da Santa Sé, Francisco sabe que a visita ao Brasil pode pôr um selo no governo do Vaticano. O papa também tem consciência de que essa marca deve ser estabelecida de forma rápida.
O sumo pontífice dedicará cada uma das intervenções no Brasil para explicar o que pensa que deve ser o papel da Igreja e ressaltar o fato de que as demandas por uma melhor condição de vida são legítimas, numa referência às manifestações não apenas no Brasil, mas em diversos países onde a população se queixa da falta de serviços e de violações aos Direitos Humanos.
Sem proselitismo
O ex-arcebispo de Buenos Aires, argentino e filho de imigrantes italianos, chega na segunda-feira ao país com o maior número de católicos do mundo (123 milhões), mas onde o número de evangélicos tem crescido fortemente nos últimos 30 anos.
A viagem do papa Francisco não busca fazer proselitismo, mas seu desejo de aproximar os fiéis do Evangelho e de dar destaque ao lado social da Igreja pode diminuir a tendência segundo a qual o catolicismo brasileiro funciona como um "doador universal" paras outras famílias cristãs, especialmente as neo-pentecostais, dizem os especialistas.
Durante seus sete dias no Brasil, o Papa visitará uma favela, um hospital para tratamento de dependentes químicos e estará em comunhão com 1,5 milhão de jovens peregrinos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).
"O Papa não vem fazer proselitismo contra outros grupos religiosos", a sua intenção é defender "o aspecto social da Igreja", é "voltar para a igreja original, para fortalecer a Igreja Católica", disse Ivan Esperança Rocha, historiador e especialista em religião da USP (Universidade de São Paulo).
Pedro Ribeiro de Oliveira, professor de Ciências da Religião da PUC de Minas Gerais, afirma que isso ocorre porque "nos últimos 30 anos, a Igreja Católica tornou-se muito clerical, muito centralizada, uma igreja de padres onde os laicos não têm voz".
Ele acredita que o catolicismo não conseguirá reverter a tendência de perda de fiéis, "mas pode ganhar forças se Francisco conseguir impulsionar as organizações de base da Igreja, as pastorais sociais e da juventude". (Com Estadão Conteúdo e AFP)