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Índios

Os waimiri-atroari e a BR-174


 Os waimiri-atroari e a BR-174

Por Manoel Lima


Desde meados do século XIX, os índios waimiri-atroari vinham sendo vítimas dos invasores comuns de suas terras – garimpeiros, seringueiros e madeireiros -, e passaram a sofrer temível pressão dos brancos no final da década de 50, mais precisamente em 58/59 quando se projetou pela primeira vez um traçado rodoviário ligando Manaus e a então capital do Território Federal de Roraima, Boa Vista. Ironicamente, esse traçado começou nos arredores de Manaus e terminou onde exatamente começou: nos próprios arredores, por erro topográfico da turma de trabalhadores de um engenheiro nissei que morava na capital amazonense. Até hoje esse erro topográfico é motivo de chacota entre os engenheiros civis mais antigos que conhecem a história.
Como repórter, tive a oportunidade de participar de duas ocasiões tenebrosas para os waimiri-atroari. A primeira, em meados de 1969 quando uma expedição da Funai foi massacrada pelos temíveis índios. Dos seus dez membros, apenas um sobreviveu. O chefe, padre e antropólogo João Calleri foi trucidado, por haver, segundo relato do único sobrevivente, ter agredido com uma tapa na cara um guerreiro wamiri-atroari, o que teria provocado à vingança dos índios. A expedição Calleri foi a primeira, de uma série de outras posteriores a ser enviada para a região dos índios para convencê-los a aceitar o traçado da hoje rodovia BR-174. Mas os índios não aceitavam a imposição do governo militar da época, e tanto massacraram como foram massacrados, ora por membros das expedições, ora por invasores de suas terras.
A segunda ocasião de minha estada entre os waimiri-atroari foi no começo de 1975, quando a Funai enviou para a região o sertanista Apoena Meireles, e sua mulher, a antropóloga Denise Meireles. O deslocamento de Apoena Meireles para a área dos waimiri-atroari foi uma imposição do governo militar, que queria a todo custo “pacificar” os waimiri-atroari e forçá-los a permitir a passagem do traçado da rodovia em suas terras. As antigas atrocidades que sofreram no passado, por defender suas terras, levaram esses índios a reagirem a qualquer presença de brancos em suas terras; e a passagem do traçado da rodovia era algo impensável para os índios, que de forma violenta passaram a reagir contra a presença até mesmo dos sertanistas e funcionários da Funai.
Depois de sucessivas escaramuças entre índios e membros da Funai, com mortes de ambos os lados, o Exército Brasileiro resolveu assumir a empreitada de concluir o projeto da topografia do traçado da rodovia. Passou a dar mais apoio aos sertanistas, implantou um acampamento no começo do que hoje é a entrada da reserva indígena, no rio Abonari, para dar cobertura aos trabalhadores da estrada em construção. Para comandar o posto da Funai no rio Abonari, foi designado o sertanista Gilberto Pinto, tido e havido como experiente e, acima de tudo, amigo dos índios. Os índios o chamavam carinhosamente de “pai Gilberto”, e lhe faziam todo tipo de carinho. Certa feita, um militar do 6º. BEC, conhecido dos índios e sempre presente na região, observou: “eu não confiaria nesses índios, eles podem fazer uma traição com o Gilberto”.
Gilberto Pinto tinha um jeito diferente de tratar com os índios. Tinha paciência com eles, com suas vontades, e conhecia mesmo as suas reações e comportamentos. Em pouco mais de um ano, Gilberto dizia ter absoluta confiança dos índios.
Os waimiri-atroari tinha um hábito para perpetrar os seus massacres contra os invasores de suas terras ou os funcionários da Funai. Sempre que eles apareciam nos acampamentos ou postos de atração no fim da tarde e dormiam ali, era sinal de que praticariam uma vindita. E contra Gilberto Pinto não foi diferente; e, mais, sempre deixavam escapar um sobrevivente, certamente para contar a história do novo massacre. Inteligentes eram eles, ou são ainda mais inteligentes agora.
Na tarde do dia 22 de dezembro de 1974, Gilberto Pinto foi surpreendido com a chegada de um grupo de índios, sob o comando do “amigo” Maruaga, então chefe supremo das duas tribos. O grupo acampou, Gilberto mandou servir comida à noite, e todos foram dormir. De madrugada, houve o massacre; e um só e único sobrevivente, conhecido como Mineiro, foi preservado, que com a confusão que se formou no início do massacre, aproveitou a deixa e pulou no rio Abonari e nadou para a margem oposta, chegando duas horas depois à estrada, e pediu socorro aos trabalhadores da topografia do BEC.
Gilberto foi flechado mortalmente pelo seu amigo Maruaga. Concluído o massacre, os índios se embrenharam na floresta por quase três meses. A morte de Gilberto Pinto suou como um alerta aos militares. Esse fato era o indicio de que os índios jamais permitiriam a continuidade do projeto da rodovia, sem antes praticarem novos e mortais massacres. O Exército então interveio de forma dura no processo de construção da rodovia. Primeiro afastou a Funai da área, e passou a comandar com mão de ferro as escaramuças contra alguns poucos índios, mais renitentes, que apareciam pelas redondezas das áreas de desmatamento e topografia da rodovia.
Apoena entra no jogo
O sertanista Apoena Meireles e sua mulher Denise foram mandados para a área. Apoena, filho de Francisco Meireles, o lendário sertanista do antigo e extinto SPI (Serviço de Proteção aos Índios), e nascido numa aldeia xavante no Mato Grosso, tinha a confiança dos militares e sua experiência em atrações famosos como a dos surui, cinta-larga e ava canoeiro, lhe davam condições de melhor trabalhar os waimiri-atroari. Só que os waimiri-atroari eram para Apoena e sua mulher antropóloga, um tipo de índio diferente, inteligentes, guerreiros mesmo.
Para acompanhar Apoena Meireles no seu trabalho de atração dos waimiri-atroari, o jornal O Estado de S. Paulo, onde eu trabalhava na época, me designou para acompanhá-lo. Afinal, eu já havia feito isso nas atrações dos surui, em Rondônia, em 72, e os ava canoeiro, em 74, ao longo do rio Peixoto de Azevedo, onde a Funai mantinha um posto avançado de atração, para atrair esse índios e os temíveis krenakarore, inicialmente conhecido como os índios gigantes, por terem supostos dois metros de altura.
Na primeira semana de trabalho no posto de atração da Funai na margem esquerda do rio Abonari, a vinte quilômetros de distância do acampamento do 6º. BEC, Apoena não havia visto um waimiri-atroari, o que o deixava ressabiado. Os índios são curiosos, e os waimiri-atroari não eram diferentes dos irmãos do Mato Grosso. Tudo isso era estranho, porque Apoena e sua equipe de dezoito pessoas procuravam fazer barulho, bastante fumaça para despertar os índios no interior da mata, e atraí-los para os primeiros contatos.
Apoena adotou uma estratégia para forçar os contatos com os índios. Passou a andar pelo interior da mata, seguindo as trilhas usadas pelos índios. Pegadas recentes no chão, galhos quebrados recentemente, davam a dica a Apoena de que os índios estavam ali escondidos, apenas não haviam aparecido no acampamento; no caule das árvores se via perfeitamente vestígios de pés e mãos, sinal de que os índios trepavam nos galhos para observar tudo, sem serem vistos. Apoena sabia que os índios estavam ali, próximos, escondidos. Nas suas andanças pela floresta, Apoena e sua equipe encontraram algo dantesco: galhos e troncos de árvores frondosas mostravam sinais de terem sofrido um tiroteio a bala. As marcas de balas nas árvores não deixavam dúvida de que os índios tinham sido ameaçados com rajadas de metralhadoras, visíveis. O fotografo Antônio Meneses, do jornal A Critica, de Manaus, que me acompanhava, registrou as marcas das balas nas árvores. As fotos, com um longo texto, foram publicadas pelo Estadão, com entrevista de Apoena Meireles e sua mulher, a antropóloga Denise Meireles.
Apoena continuou o seu trabalho, mas confidenciava que dificilmente demoraria no rio Abonari, porque estava sofrendo muita pressão dos militares para que ficasse calado, não recebesse jornalistas para conversar diárias. Uma entrevista o Estadão, em seis de maio de 1975, foi a deixa que os militares tiveram para que o sertanista fosse demitido. Apoena chegou ao posto da Funai no Abonaria no dia 14 de fevereiro não demorou no posto três meses.
Depois de Apoena, outros sertanistas foram enviados para a região, mas sem o impacto de suas atuações causarem qualquer problema para os militares e para o andamento da rodovia. E no dia 5 de maio de 1977, a rodovia foi inaugurada pelo governo Geisel. Mas os problemas dos waimiri-atroari com os brancos jamais acabaram.
Gilberto Pinto me deu sua última entrevista no dia 18 de novembro de 1974, um mês e quatro dias antes de sua morte. Ele, que no dia 28 de dezembro do mesmo ano pediria sua aposentadoria, confidenciou que estava cansado do seu trabalho e que via poucas chances de os waimiri-atroari aceitarem a presença dos brancos em suas terras; a estrada era um demônio para eles, segundo Gilberto Pinto. Sua entrevista só foi publicada no dia 24 de dezembro de 1974, com uma série de cortes, porque a censura evitou algumas críticas do sertanista ao trabalho da Funai e à política indigenista do governo militar. Gilberto Pinto não gostava de falar com jornalista, mas me fez um pedido. Que sua entrevista só fosse publicada quando saísse o seu decreto de aposentaria. “Ou com a minha morte”, exigiu ele.
Apoena Meireles deixou a região dos waimiri-atroari sem por em prática a sua experiência de grande sertanista; talvez para não se associar à ojeriza que alguns militares tinham aos índios. Voltou para o seu cargo de assessor da Funai em Brasília, e evitou o quanto pôde fazer parte, segundo ele, do jogo que os militares faziam para “matar índios, e fazer com os índios criassem um ódio maior aos brancos”. Apoena morreu em 2005, numa noite chuvosa de Porto Velho, quando saía de uma agência bancária. Ele estava em Rondônia para pacificar os ânimos dos índios cinta-larga que já haviam massacrado 28 garimpeiros que invadiram suas terras para explorar as ricas jazidas de diamantes. Denise morreu de pneumonia no interior de Goiás, quando fazia um trabalho de antropologia.
Os waimiri-atroari continuam vivendo na região, sua população está aumentando, hoje eles participam de um projeto da Eletronorte, em parceria com a Mineração Taboca, que lhes paga royalties para explorar as jazidas de cassiterita na região. Os waimiri-atroari hoje estariam com uma população superior a 1.500 pessoas; esse número chegou a pouco mais de 350 no auge da construção da rodovia.
Hoje, a Comissão da Verdade que apura as mortes e os desaparecimentos de pessoas durante o regime militar está apurando a morte dos waimiri-atroari; cálculos aleatórios estimam que dois mil indígenas foram massacrados durante a construção da BR-174.

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