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Francisco Espiridião

A corrupção contagiosa


A corrupção contagiosa

No Brasil, alguns fatos são eufemisticamente engraçados. Eufemisticamente, sim, porque, se não vistos sob este ângulo, facilmente entrariam na lista de atos aterradores. Em todos, um lugar comum, a corrupção. Não importa o matiz. Segue alguns desses episódios.

O primeiro deles é a questão levantada pelo Fantástico, da Rede Globo, há duas semanas, quanto às licitações viciadas. Ora, só quem chegou de Marte hoje é que não sabe que empreiteiros, fornecedores e outros do gênero se valem de tal expediente neste País, seja no Sul-maravilha ou nos grotões mais recônditos.

Quando o Fantástico trouxe à luz o nome das empresas flagradas com a boca na botija, parecia estar mostrando um ET de carne e osso, coisa do outro mundo. “Ah! Que coisa!”, exclamaram alguns caras-de-pau que, de tão escrachados com a prática, restava-lhes a saída pela via do deslavado farisaísmo.

Quando estourou o escândalo do envolvimento do senador Demóstenes Torres (DEM/GO), líder do partido no Senado Federal, com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, foi um deus-nos-acuda. O Demóstenes, o vestal?!!! Não pode! O homem vivia de dedo em riste no plenário da Casa, apontando os erros de todos, a torto e a direito, enquanto, por debaixo dos panos, dava nó em pingo d’água.  

A sensação que se teve do episódio pode ser comparada com a produzida pela denúncia (comprovadíssima) de que outro vestal, o ex-senador Arthur Virgílio (PSDB/AM), mantinha um “amiguinho” frequentando curso no exterior às expensas do gabinete que lhe cabia no Congresso Nacional (dinheiro nosso).  

E a bruxa continua solta. Agora é a vez de outro senador, também do DEM, fazer malabarismos para provar ser pessoa honesta, confiável. Trata-se de ninguém menos que José Agripino Maia (RN), o presidente nacional da sigla, o mesmo que estava a forçar a expulsão do coleguinha Demóstenes do partido.

Desta vez, quem botou a boca no trombone foi o empreiteiro José Gilmar de Carvalho Lopes. Segundo ele, Agripino Maia teria recebido R$ 1 milhão em doações para sua campanha eleitoral. Dinheiro oriundo de um esquema de corrupção montado nas entranhas do Detran do Rio Grande do Norte. O imbróglio já está nas mãos do procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

Para não ficar só na oposição, ou seja, no DEM de Democratas e não de Demóstenes Torres, voltemos nossos holofotes para outro foco, o PT. Sim, porque corrupção sem o PT na jogada é ato falho. A personagem da vez é a ministra Ideli Salvatti, hoje, fazendo – ou tentando fazer – o meio-de-campo entre o governo e o Congresso.

Quando ocupava o Ministério da Piaba, digo, da Pesca, Ideli teria firmado convênio com uma empresa, a Intech Boating. Nada de mais se a empresa não tivesse financiado sua campanha para o governo de Santa Catarina, em 2010.  

Pensando bem, bem fez o senador Jefferson Peres (PDT/AM), que optou por desencarnar, aos 76 anos, em maio de 2008. Morreu limpinho. O desenlace ocorrera via outra febre que não a da corrupção generalizada que insiste fazer morada, de forma epidêmica, nos corpos das autoridades hodiernas. E haja febre!

Francisco Espiridião é Jornalista; e-mail: [email protected]

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