- 05 de janeiro de 2026
Vlado, sua morte não foi esquecida
Agora sim o Brasil poderá encontrar a verdade verdadeira sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog nos porões do DOI/CODI, órgão de repressão do Exército Brasileiro durante a revolução de 64. Até que enfim o Estado Brasileiro é forçado a rever o seu passado de covardia e indiferença contra seus cidadãos, depois que a Organização dos Estados Americanos (OEA) decidiu abrir investigação para esclarecer a morte de Vlado, como Vladimir Herzog era
conhecido por seus colegas de profissão e amigos.
A morte de Vladimir Herzog nos porões de uma unidade do Exército Brasileiro, na Rua Tutóia, em São Paulo, no dia 25 de outubro de l975, jamais foi esclarecida. O Exército à época divulgou nota que Vlado havia cometido suicídio, o que não foi aceito pelas entidades de direitos humanos, pela OAB, pelo Sindicado dos Jornalistas de São Paulo e pela Igreja Católica.
Os amigos e colegas de Vlado o conheciam bem, sabiam como era a sua índole e formação de vida para não acreditarem em suicídio de alguém que amava a vida, a família, a sua formação política. Homem com esses predicados jamais cometeria suicídio mesmo diante de adversidades que o levassem a temer a morte.
Conheci Vlado na TV Cultura de S. Paulo, no início de 72, quando fui apresentado a ele pelo também jornalista Raul Martins Bastos, então chefe do departamento de correspondentes do jornal O Estado de S. Paulo. Eu era repórter setorista do Estadão. Bastos queria me ajudar a melhorar o orçamento quando indicou o meu nome a Vlado como repórter setorista da Cultura.
Trabalhamos juntos muito pouco tempo. Em julho daquele ano, fui deslocado para Manaus pelo Estadão para cobrir a chave da Amazônia da Mini-Copa promovida pelo CBF/FIFA, para festejar o Sesquicentenário da Independência do Brasil. Tive que deixar a Cultura, mas o chefe Vlado me avisou que quando eu voltasse da Amazônia a minha vaga estaria à minha disposição. E foi o que aconteceu quando retornei em meados de 73.
Aí falava mais alto o coração não do chefe de 36 anos de idade, mas do amigo fraterno. Dirigir a Cultura naquela época era tão importante quanto importante era ser o porta-voz do governo da Revolução. Vlado não era o chefe, mas o amigo, o irmão.
Lembro ainda das peladas que nós jornalistas do Estadão jogávamos no campinho gramado do DOI/CODI na Rua Tutóia, sempre contra os veteranos do Corinthians e do Palmeiras. Nós não sabíamos que ali entre as paredes daqueles prédios do Exército se praticava um dos crimes mais hediondos praticados pelos ditadores, a tortura física contra o homem.
Moradores dos arredores da Rua Tutóia diziam ouvir choro e lamentos dos presos políticos da revolução, durante a noite. O Editor do Fontebrasil, Edersen Lima, criança naquela época sempre me acompanhava nas peladas domingueiras no campinho de futebol dos milicos.
Eu e a família voltamos para Manaus no começo de 75, mas já nesse período Vlado e outros colegas e amigos eram foco dos militares. Alguns já haviam sido presos. Lembro que dias antes de eu viajar para Manaus com o filho Edersen, eu ainda me despedi do Vlado; foi uma ligação telefônica rápida; afinal, Vlado estava sendo monitorado pelos repressores do golpe militar. Despedimos-nos fraternalmente, e Vlado me desejou sucesso como correspondente do Estadão em Manaus.
Não vi mais o amigo Vlado. Soube pelo Raul Bastos que ele havia sido preso pelo Exército. E dessa prisão, só soube de sua morte, diziam os milicos, por suicídio. Eu e o jornalista José Marquês, então correspondente do Jornal do Brasil em Manaus e também amigo de Vlado, choramos juntos a sua morte.
Afinal haviam torturado e morto um homem bom, um profissional dos mais preparados, um ser humano com alto grau de humanismo jamais visto. Agora, a OEA quer fazer justiça. Aliás, a OEA vai fazer o que o Estado Brasileiro não quis fazer. Vai apurar as circunstâncias da morte de Vladimir Herzog.
Vlado, seus amigos e colegas torcem para que tudo seja esclarecido. A sua família precisa saber como se deu a sua trágica morte.